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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Poema banguela

Estávamos, eu e o Beto Leão, num bar da Avenida Universitária. Ele, aflito, me chamara pelo celular; fui imediatamente ao seu encontro. Beto Leão foi jornalista, roteirista de cinema e escritor. Também um alcoólatra que lutou até a morte para se livrar da doença. Sou seu amigo e fã. Conheci Beto quando que estava vereador. Ele e o Eduardo Benfica, então presidente da ABD- Associação Brasileira de Documentaristas de Goiás, me ajudaram na justificativa da ideia do projeto de Festival de Cinema Brasileiro em Goiânia, depois transformada em lei.

         Caminhei alguns quilômetros para trazê-lo de volta ao mundo sóbrio. O autor de Goiás no Século do Cinema sonhava em se livrar do vício por conhecer todas as armadilhas que o fizera fraquejar. Sofria diante desse infortúnio de idas e vindas.  Chamara-me para levá-lo de volta pra casa. Seu aspecto estava horrível; roupa suja, óculos ensebados e uma conversa desconexa. Na mesa uma garrafa pela metade de cerveja e um copo americano vazio; talvez de pinga. Sentei-me ao seu lado. Entrara em surto psicótico.

Seu olhar procurou um ponto qualquer no espaço.

Este é o melhor o melhor filme do cinema brasileiro.

Não entendi nada do que ele disse. Não vi nenhuma tela de cinema; nem tinha televisão naquele bar. Percebi que a bebedeira do Beto trouxera-lhe alucinações. Ele enxergava miragens com os olhos bêbados da alma arrasada pelo álcool. Falava com Dante Alighieri, Kafka, Manuel Bandeira, Freud, Guimarães Rosa. Tudo muito confuso.

Fiquei calado esperando quando e como agir. Estava indeciso sobre o que fazer para livrar o amigo daquele inferno. De repente Beto parou de falar e me olhou firme. Seus olhos estavam molhados. Segurou as minhas mãos e suplicou:

Ajuda-me. Quero ser internado numa clínica de recuperação de alcoólatras. Você faz isso por mim?

Percebi sinceridade naquele gesto. Ele tinha certeza de que eu o ajudaria.
Duas horas depois chegamos à clínica do Dr. Salomão. Assinei os documentos em que me responsabilizara pela internação. Beto Leão ficou pouco mais de um mês internado. Aí recomeçou uma longa alternância entre a abstinência e a bebedeira. Até que em outubro do mesmo ano ele faleceu vítima de um AVC.

Anna Carolina, filha, lançou depois da morte do pai, O Diário de um Alcoolista, pela Editora Kelps. É um libelo emocionante da luta humana e solitária de Beto Leão. A tentação é uma força esmagadora da vontade fraca. Só os fortes sobrevivem ao fascínio do primeiro gole. Choro pelo amigo que não teve a força necessária.

Noutro dia, quando me dirigia à PUC TV, passei pelo mesmo bar da Avenida Universitária.  Os bêbados sorriam banguelas no carnaval.
Talvez pensem que aprenderam muito com a vida. Mas nada sobre o perigo a quem não consegue controlar o ímpeto de beber sempre mais.
 Beto Leão tinha talento e um belo texto. Apreendera tudo sobre cinema e qualquer assunto de seu interesse.
Não devia ter aprendido a beber.

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural,www.raizesjornalismocultural.net, PUC TV, sábado, 12h30. Escreve aos sábados no DMRevista.

Aruanã se veste de água e luz

No porto de Aruanã a canoa solitária lembra uma foto da ilha de Capri com um barco vazio deixado entre os rochedos da marina. Vejo o rio Araguaia como o fotógrafo viu o mar de Capri; do alto. Lá em baixo  o boto belisca os peixes que, desesperados,  fogem para a rasura; o tuiuiú, numa perna só, espera a sobra. Os dois tramam contra o cardume, o boto ataca e o tuiuiú não entra no rio. Deixam o céu para o martim-pescador que é mais rápido no ar. No bico do tuiuiú tem um peixe, dentro do boto outro com um menor na barriga. As águas prateadas brincam com a luz do sol. Meus pensamentos saem da água. Galopam no tempo com as rédeas soltas entre o silêncio das nuvens.

Há algo em comum entre as cores do Marrocos e a alma húngara que perambula pelas ruas de Budapeste? Será que a elegância e a bravura dos guerreiros Massais tem relação com a escola de Belas-Artes de Paris? Qual a ligação entre o místico Juazeiro do Norte e o Palácio de Queluz? Talvez o elo comum seja mistério no céu. Por fim, por que Hermes Trismegisto escondeu dos Carajás a arte de fazer ouro? Se o segredo fosse revelado a areia do Araguaia seria ouro em pó. Hermes tingiu de amarelo-ouro as escamas do peixe ‘Dourada’ que se veste de água e luz.
 
Volto ao porto de Aruanã; a canoa permanece abandonada. Nessa época do ano as praias ainda molhadas pela cheia mostram o lombo. Em junho já tem acampamento na margem e no meio do rio. Para o poeta Edival Lourenço, autor de O Elefante do Cego, o vale do Araguaia é o jardim do éden dos goianos. Mas, só nas férias de  julho, com a ressaca da festa de Trindade e da Copa do Mundo, começa a zoeira das canoas. Depois, tudo volta à paz no rio que corre inexorável para o mar. Aruanã é cenário que atrai artistas e escritores, político e celebridade; em comum a pesca.

Antonio da Kelps faz de Aruanã sua terra adorada, o mito, o ideal. Pescador incansável descobre lugares que nem os índios Carajás conhecem. Norman Douglas, romancista inglês, também fez da Ilha de Capri o seu lar e o palco da sua vida.

Um menino magricela rola na areia perto da canoa assombrada. Dá um rápido mergulho para tirar a areia do corpo. Matrinchãs assustadas passam por baixo da canoa vazia. O tuiuiú sobrevoa o boto-cor-de-rosa. Longe, no mar mediterrâneo, um golfinho pula no mar de Capri. A clara manhã de sol forte esquenta os bancos da canoa solitária.  Um barco vazio é tão triste e assustador qaunto um teatro abandonado.

Doracino Naves é jornalista, diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)

Imagens de papel

Rasgo a memória em busca das imagens guardadas entre os meus papéis. As anotações revelam histórias passadas; não só da minha vida, mas também de outras pessoas ou um acontecimento. Aqui vai uma crônica para celebrar a arte do diálogo e ver a lógica do argumento contrário com bom humor. E aceitá-lo sem evasiva. O armazém do Seu Juca estava instalado num prédio estilo americano, na Vila Nova.

Naquela venda não havia preço em coisa alguma. Ali se vendia de tudo: alimentos, ferragens, tecidos, material de construção, chapéus, instrumentos musicais, bijuterias e aviamentos. Era um pegue-pague; tudo ao alcance das mãos. Com uma diferença fundamental: não havia registro do preço de venda. Só havia um código com o  custo dos produtos. Mais tarde descobri que cada letra da palavra ‘pernambuco’ correspondia a um número de zero a dez.  Assim sete era ‘b’. Setenta, portanto, estava escrito com duas letras, b mais o, igual 'bo'. Sem trocadilho.

A maioria das vendas era feita fiado.

- Seu Juca, anota na caderneta. Um par de botinas!

Ele anotava o produto sem o preço de venda que era para poder negociar depois. O freguês aceitava as regras da casa; tudo era feito na base da confiança. Fazia parte de um jogo de barganha. No bom estilo de negociar  do povo abrâmico. Ele dizia:

- É fundamental conversar e convencer o outro da nossa razão. Não tenho preços fixos. Tudo pode mudar com uma boa conversa. Se o freguês me convencer da necessidade leva até de graça.

Ele dizia que havia falta de diálogo no mundo. E a negociação nos preços era um bom motivo de argumentos com mão e contramão.  Zequinha, um baiano de Ilhéus queria comprar um violão para o seu filho.

- Só pago 40 cruzeiros.

-Não, senhor, é 80 e não se fala mais nisso.

-Seu Juca, meu sonho é comprar um violão para o meu filho. Mas só tenho 40 cruzeiros. Se não quiser o preço que posso pagar não compro nem fiado.

Seu Juca pensou antes de perder a venda.

- Vai, leva o violão para o garoto!                      

Aceitou ganhar pouco naquele produto; menos perder o freguês. Perdia numa mercadoria e ganhava na outra. Cada objeto tinha um preço, dependendo da situação, do comprador e do momento da venda. Assim, seu comércio prosperou. Mas, de vez em quando alguém saía sem comprar nada. Ele perdia o humor quando isso acontecia. Num desses dias entrou na cozinha bravo.

A mulher de Juca passava boa parte do seu tempo cuidando de animais doentes que recolhia na rua. Na cozinha, encontrou a mulher cuidando de duas gatinhas recém-nascidas deixadas na porta do armazém. Perdeu a paciência:

-Quero que você se livre já dessas...

-Delicadamente a mulher disse:

Calma, querido. Não fale bobagens na frente das gatinhas, elas ainda são crianças.

Doracino Naves é jornalista, diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (http://www.raizestv.net/)

Cornetas em silêncio

Gosto de escrever quando desperto sonhos guardados na memória. Num canto do cérebro tenho páginas amareladas como a cor da paisagem de Goiás nos meses de seca. Descubro um prazer novo ao caminhar a esmo pelas ruas de Goiânia. Sexta-feira, duas da tarde. Passa gente calada com sorriso amarelo. Passam carros acelerados com bandeirinhas agitadas ao vento. Estranho, já foi o jogo do Brasil; não há alegria. Nem as vuvuzelas tocam nessa tarde lerda. Ainda bem porque o som maluco dessas cornetas atravessou o Atlântico para zunir sem parar nos meus ouvidos. Depois do ‘zero a zero’ elas estão silentes. Sossego para os meus ouvidos. Há um clima de velório que nem o grito dos locutores consegue abafar. Talvez o futebol arte tenha morrido de desespero pelo mau trato à mãe bola.

Na Praça Cívica os carros fazem fila no engarrafamento que enche todos os anéis. Um casal de jovens atravessa a Rua 26; veste verde e carrega bandeiras do Brasil. O rapaz, como quem procura esperança para os jogos futuros, pergunta o que ela acha da seleção.

-Não vai ganhar a Copa!

E disse com um olhar caído. O urro dos motores dos carros não deve incomodar um antigo morador da rua: Pedro Ludovico Teixeira. Talvez só o pesar da torcida chegasse ao além. Quanto a nós, cronistas, é melhor ficar atentos ao que acontece. Não é fácil escrever uma crônica em dias de jogo do Brasil; os sentimentos assumem o comando da mente. Espero por uma luz ou um fragmento qualquer para começar a crônica.

Chego ao portão da casa onde morou Pedro Ludovico. Um guarda vem até a grade. Tem jeito de quem discute futebol aos berros. Penso que é torcedor do Goiás. Falo comigo: “esse sujeito não gosta do Dunga”. Parei para olhar a casa; o pomar está mais crescido do que na época em que o fundador de Goiânia viveu ali. A fragrância das plantas da terra ainda sobe até a sua janela. Dá até para ouvir os sons da mata crescendo ao redor. Impressiona como a casa se parece com ele. Já reparou como as casas têm a cara do dono?

Sigo para o lado da Alameda dos Buritis sem perguntar nada; a placa anuncia que o museu está fechado para reformas. Do outro lado da Rua 26 há um prédio de muitos andares. Nas janelas mais bandeiras do Brasil como sinais de uma linha misteriosa traçada pelos torcedores obstinados.  Então, as coisas mais sérias ficam para depois da Copa. Aonde nos levará essa trilha secreta marcada com as cores da seleção brasileira?

Dobro á direita; avisto mais casas com a cara do dono. Se tivesse o dom  do retrato a lápis desenharia com precisão o rosto do morador. Não olho para trás. Pouco a frente outra fila de carros parados.

O mormaço traz no ar esperança antiga. Uma cigarra temporã canta rouca e desafinada numa pobre tarde de junho. Um caju maduro pula o muro da casa mais antiga da rua.

Doracino Naves é jornalista, diretor apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net/)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Pulgas bêbadas

No começo do dia eu descia pela Avenida T-1, depois de andar pelas ruas atochadas de carros levando gente apressada. Uns avançam o sinal vermelho, outras passam uma roda sobre o meio-fio para furar a fila de carros que escorre lerda pelo asfalto cansado do acelera-e-para. À frente, numa esquina de pista dupla, o trânsito para. As luzes do carro da polícia piscam alucinadas no cruzamento; uma ambulância de sirene ligada procura uma brecha apara passar.

Um camburão do IML indica que algo de mais grave aconteceu. A fila dupla, até tripla, me faz andar sem querer. Nem soube o que aconteceu ali. Alheia, a mulher fuma um cigarro acenando nervosa com o homem  no banco de passageiro. O som bate-estaca da caminhonete ao lado fez vibrar tudo a sua volta. Uma mocinha, distraída, passa batom vermelho nos lábios. Os carros de luxo mantêm os vidros escuros fechados.

O careca com ar de quem discute por qualquer erro no trânsito tira cera do nariz. O mundo, irônico, parece inocente nessa manhã de engarrafamento na Avenida T-1. Nem as setas, abolidas do uso pelos motoristas de Goiânia, dão sinal de vida. Triste sina dos cronistas das grandes cidades. Não há nenhum exemplo ou uma lição que mereça uma boa crônica. Mais sorte tem os poetas ao dar voz à indignação da alma.

Vagueio com suave emoção na pressa metálica que campeia nas ruas de Goiânia. A gente, enfim, acaba se conformando com a rotina  nervosa do trânsito. Inevitável comparação com o trânsito de Goiânia de outros tempos.

Lembro-me de Goiânia com poucos carros. Bem diferente do alvoroço nas ruas e avenidas de hoje. Puxo mais longe nas lembranças. Não me recordo de ficar estressado naqueles tempos. Havia, creio, mais camaradagem com menos disputa pelos pelo espaço nosso de cada dia. Até os ônibus circulavam com poucos passageiros. Em troca do sossego eram cheios de pulgas. Elas saltavam bêbadas pelas residências, cinemas, teatro; nas salas de aula, hospitais; em todos os lugares onde tinha gente.

Por falar em espaços públicos onde andam as pulgas da Avenida Bahia e da P-16?  Sumiram para sempre.  É, os tempos de hoje são outros. Para alguns, melhores. Para outros, piores. Na verdade, são tempos diferentes. Mas, as pessoas, no geral, têm os mesmos sonhos. Por que sonhamos com essa Goiânia do  passado?

Talvez seja porque foi o tempo de descoberta da beleza das coisas, o ar puro dos Bosque dos Buritis, as ruas sem asfalto da Vila Nova, o Cine Campinas, o Setor Oeste sem casas, a fazenda onde hoje é o Jardim América. Ou o gosto do melado vendido no Mercado Central. A moça branca. Que delícia de doce!


No final da vida as lembranças voltam das catacumbas dos sonhos. Paro na esquina da T-9. O começo do meu dia foi invadido por uma multidão de carros que entope os meus olhos míopes.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)

Na hora solene do meio dia

O orador sobe a tribuna. Espera o sinal para começar. Ao fundo do salão da escola tem um mural de recados colado na parede. O alto falante anuncia o nome do último concorrente de um concurso de oratória, tradição do Grêmio Literário professor João Alberto de Almeida. Seis finalistas chegam à final: Claudino, Joely, Anadir, Aldo, Epaminondas e Juvenal. 

As regras do concurso marcam uma edição por ano. Ao vencedor duas vagas para a excursão dos alunos à Caldas Novas. No centro do salão uma tribuna, totem de vaidades, abraça os oradores com gestos ensaiados, clássicos. Alguns foram praticados em cima de um cupim nos ermos de Setor Jaó daquela época. A linguagem caprichosa vem repleta de citações românticas.

No canto do salão, o professor Vanderlan  acompanha a verve dos oradores. Baixo, franzino, agitado, parece com os poetas do romantismo. Lembro-me de que ele entrava na sala declamando Castro Alves. Ainda havia os mestres João Natal, Belarmino, Arnóbio, João Ubaldo, a professora Iara que, atentos, escolhiam o melhor discurso.

Vestiu-se de verde e amarelo o cenário dos candidatos a Rui Barbosa.  Alunos militantes se organizam em claques. Lá no fundo, uma menina encostada na parede veste olhos de segredo; pórticos de luz. Jorra deslumbre. Ela enxerga com olhos azuis, perfeitos e úmidos; emoldurados por cabelos castanhos. Está ansiosa pelo final. As peças de arquitetura construidas por palavras tinham que driblar, como Mané Garrincha, os censores da ditadura militar galopante no lombo do ano 65.

Um mulato forte, grandalhão, alma fardada, entra sorrateiro e se esconde no meio da multidão acesa pelos tempos luminosos dessa era. O concurso de oratória haveria de prosseguir. Afinal, o córrego Botafogo, que corre às costas da Escola Técnica de Comércio da Vila Nova, despreza o remanso, sofisma as pedrinhas do percurso.

Procura uma posição mais cômoda para morrer nos braços do rio Meia Ponte. Os córregos e os rios procuram o mar fadigado como antenas titubeantes. Trôpegos, meus sentidos tateiam nas lembranças. Atrás do orador tem uma parede com bandeiras num mastro de madeira colocado no piso. O orador espera tenso, frio como uma parede na sombra. Do alto da tribuna olha a platéia  com medo.

Misericórdia. O espaço desta crônica acabou. Volto na próxima semana para terminar essa história.
                     
Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.fontetv.net)
domingo, 20 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Espelho do Sol

Gosto do sábado. Deus o criou como modelo para os dias de folga. Assim, ando livre por Goiânia. Na agenda de hoje tem um passeio sem compromisso pela cidade. Saio de casa com a alma leve. No bolso, nem lenço, nem documento, nem o celular indiscreto. Só levo as aventuras da semana guardadas no peito. O sábado tem cheiro de partida. Minha alma voa a um dia certo, no futuro, quando hei de prestar conta dos meus atos ao Criador. Talvez seja num sábado.
             
Na hora do Juizo Final quero um espírito sossegado pelos sábados alegres, de passeios e pescarias. E de repetidas iniciações, batismos e catarses. Oh, tempo inexorável, pode tirar o meu sossego nos outros dias; menos no sábado. Rogo a Deus - que a amada não me ouça - para que cure a minha chatice crescente com a idade que chega branqueando os cabelos. Meus amigos sabem que aos sábados sou melhor do que nos outros dias.
            
Minhas emoções, presas com sentimentos, se libertam. Elas voam acima do ipê amarelo da T-1. Anjos adejam no céu. Embaixo, o tempo úmido das águas de março se guarda para os meses secos do cerrado. As últimas nuvens soltam gotículas que  prometem voltar no meio da primavera. Estamos no outono. No Parque Areião a lua cheia alveja as folhas do ipê esperando ordens do céu para florir. Promessa de flores brancas de ipê. 
               
O sábado, animado,  veste branco; inocente, puro, com a cor da pele do cordeiro. Um vento suave e fresco balança minha camisa de algodão. Olho para o lado procurando a palavra perdida nos tempos de Hiram. Busco, incansável, a chave da existência. Pode ser que esteja guardada sob a abóbada do Arco Real. Ou, talvez, a Luz ainda esteja distante da minha compreensão.
                
Fico perto de mim para saber quem sou. Sina inglória essa de a gente se esmiuçar nas lembranças para se conhecer. Numa padaria do Setor Oeste encontro um amigo da época do Automóvel Clube, onde hoje é o Parque Flamboyant. Sábado jogávamos futebol de salão. Ele, poeta da bola. Eu, espectador da vida, projeto de cronista.
                
O poeta, na tessitura do verso, se faz sublime aos sábados. Gosto desse dia de casamentos; noivos em juras de amor. Mas, ele também simboliza  despedidas, perdas. Sorte que neste sábado a lua brilha por trás das últimas gotas de chuva de 2011.
                
É lua cheia. O sábado ilumina minhas sombras. A lua, espelho do sol, faz a sombra se esconder dentro da mata.
                
Doracino Naves é jornalista. Diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (http://www.raizestv.net/). Escreve aos sábados neste espaço.
 

Chove poesia na minha crônica.

Yêda Schmaltz: “Está caindo uma chuva de poesia na minha horta/ A poesia está batendo na porta, Carlos, e pulando pela janela/ a poesia está me afogando em poesia”.

Luiz de Aquino: “A noite anda, e aviva a chuva/Há um ar de espera e ansiedade... A mão diz adeus, a boca assente”.

Edival Lourenço: “Tudo é temeridade: a vida é um tremendo bolo/-uma brevidade".

Pio Vargas: “O volume da chuva é que decifra o dilúvio/ como no corpo eflúvio/é âmbar a dúvida/ a porta que mais vence/ é a porta que aberta permanece/ e o corpo que sente/ é nem sempre o que adoece”.

Novamente Pio Vargas: “Hoje é este voltar-se para dentro/enquanto alguém foge/com meus olhos molhados/ Alguém que eu saberia explicar/não fosse a tarde apodrecendo/dentro do peito/ e a inútil agonia de morrer”.

Chico Perna: “O pássaro sonhado carrega/nas asas muitas pedras/ perseguições e desencantos/ por estar preso ao sonho/a um visgo tão ilusório quanto a sua existência”.

Gabriel Nascente: Havia uma chuva/escondendo nuvens/dentro do sapato/havia um rio que nunca nadou entre as escamas/E um adejo de pombos na taça de Dionísio”.

Sinésio de Oliveira: “O relógio parou/ O tempo continuou dentro dele/ A imobilidade dos ponteiros é o tempo atropelando tudo e todos”.

Miguel Jorge: “Já não se vê o azul do azul, o mar que se imagina/Um tempo que fora assim de uvas, de frase e vinhos passados na memória/ - E quem cuida das vinhas do mar? O sono se desfaz no fim da linha, sensual linguagem que mal se pronuncia/ Cospem chuvas as uvas, verdes migalhas sobre a paisagem/Alguém fecha os olhos da noite, as feridas travadas dentro da casca, inutilmente expostas".

Gilberto Mendonça Teles: “Num cantinho de Goiás/quem achar um verso é meu/Tirei da pena de uma ave/que cantou e se perdeu/saiu voando, voando/nunca mais apareceu”.

Afonso Félix de Souza: “Ruas de chuvas leves, nunca o inverno/Como menino a brincar vinham as tardes/ e vinha o céu/Adeus, nuvens cinzentas/ onde vagam os monstros meus da infância”.

Brasigóis Felício: “Dizemos que não se fazem/ mais dias como antigamente/como a querer que o ontem/permaneça o mesmo/hoje e para todo o sempre”.
             
Carlos Willian: “Não há caminho/ e nada valho/ meu rir lascivo/é uma coreografia de enganos/ eu cresci como crescem/os espantalhos/ eu cresci sem planos”.

Cora Coralina: “ Não te procurei/não me procurastes/ íamos sozinhos por estradas diferentes/ Indiferentes cruzamos/ Passavas com o fardo da vida.../ Corri ao teu encontro/ Sorri.Falamos/ Esse dia foi marcado/ com a pedra branca/ da cabeça de um peixe/ E, desde então, caminhamos/ juntos pela vida...”

      
Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do Programa Raízes Jornalismo Cultural na Fonte TV (
www.fontetv.net)

Setembro Amarelo

Nas madrugadas calorentas de setembro o mundo é o culpado pelas tristezas do Bairro Popular. Com o tempo amarelo-seco tudo parece perdido. O vento quente entra sorrateiro através do lençol. Meus sonhos e medos se escondem debaixo da cama. Com as surras do mundo nas costas me aprumo na cama. Espreguiço para expulsar a moleza que ronda meu corpo cansado de esperar pela chuva.  Quero soltar pipas na clareira do Estádio Olímpico, sob o céu azul dessa primavera que chega marcada com o atraso das chuvas deste ano.

Sentado na cama ouço as tarefas diárias dançando em cima do meu telhado. Sou rei na minha cama. Em prece, estendo as mãos para o alto. Elas puxam meus braços em direção ao sol que se esconde dos meus dedos. Nestes instantes de sonho imagino que posso alcançar o céu com as mãos. Por que os vaga-lumes fugiram deixando somente nuvens escuras sobre a terra?  Cansados da pequenez do homem os vaga-lumes fugidios se fizeram estrelas. Ou talvez, em bandos retirantes, foram se juntar ao sol para iluminar o mal da terra. A noite chega calorenta e abafada com a falta de vento.

A lua clareia as rachaduras do muro cinza com nascentes cachos de uvas verdes sendo preparadas para o Natal. Minha casa balança com os meus sonhos. Oh, Quintana!  Neste muro tem “Uma única porta. No único muro de uma casa em ruínas. Cuidado... Quem atravessar essa porta, à noite, pode ficar para sempre no Outro Mundo!”.

Expulso a dual mistura de preto e branco que pinta de cinza o meu dia neófito. Ponho o verde no amarelo para criar o azul, lembrando acidentalmente o Césio 137 que afligiu o Bairro Popular em 1987. Agora, quando estamos prestes a completar 23 anos da tragédia do Césio me lembro de todos os relatos dramáticos. Alguns dolorosos, de gente que fugiu daqui com medo. Lembro-me bem da história de uma mulher casada com um vendedor-viajante que, no estourar da bomba de césio, se encontrava em Miracema, Tocantins.

O marido, por telefone, pediu à mulher que não saísse de casa até passar o perigo de contaminação. Que esperasse pela sua volta dali a uma semana. A mulher, com dois filhos pequenos, se aninhou no pequeno quarto de um barracão nos fundos da Rua 57. Presos numa parede branca os cachos de melzinho de são-caetano se abriam em flores amarelas; com sementes vermelho-brilhante para atrair beija-flor.

Chegou o fim de uma semana e o marido não voltou. Preocupada, já não dormia de ansiedade. Lá fora, o roncar das máquinas e dos caminhões mostrava a pressa em levar o lixo radiativo para longe. O vozerio de repórteres e chefes de operários dava a impressão de um campo de guerra; um território minado por bombas radiativas. Passou outros dias e outras noites e ele não voltou. No cochilo das noites mal dormidas ela sonhava com os passos e a voz do amado chegando para salvá-la da prisão.

Cansada de esperar, juntou os filhos e fugiu para a casa dos pais, em Cromínia. Deixou para trás o sonho de Goiânia e “aquele” que nunca mais voltou.                                              Decerto, encantado por um rabo-de-saia qualquer. Mas, ela estava livre dos males da radiação e da espera inútil.

Atrás do muro cinza o tempo se esforça para brotar as uvas nos galhos sobre o muro que insiste em continuar cinza. O mundo é inocente pelos lados no Bairro Popular.
 
Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Flagrante

Manhã de chuva intensa no centro de Goiânia. Motoqueiros se escondem da chuva, pedestres esperam embaixo das marquises até o temporal passar. Dezenas de carros aguardam o sinal verde. O ônibus-sardinha também para. Todos param na esquina da Avenida Goiás com a Rua 2. Um vendedor de frutas borrifa água nas maçãs vermelhas, goiabas verdes, uvas roxas, pêssegos amarelos e mangas cor-de-rosa. As frutas sentem cócegas no corpo. Sobram gotículas que escorrem lembrando o orvalho de inverno no capim meloso do campo limpo. 
      

                 Chego inteiro à esquina, com o espírito cheio de arestas. Mas mesmo na chuva, minha alma é clara. Parece, na minha míope visão, o espírito eterno de Renoir quando pintou Le Ponte des Arts, em Paris. Ele, genial artista, retratou o porto do Rio Sena tomado de luz e pedestres na praia. Eu, escritor neófito, talvez aprendiz abaixo de zero, digito meus limites nesta crônica com as cores da minha percepção.
     

               Ainda sinto o cheiro do café servido, minutos antes, na varanda da casa da irmã Marlene. Misturado com prosa sobre assuntos amenos, com direito às caçoadas do sobrinho Daílton, que acordou de bom humor. Na boca ainda tem o gosto do pão de queijo quentinho servido com um copo de suco de laranja. Nisso entra uma vizinha com um prato de pamonhas. Marlene retribui com um prato de pão-de-queijo. O café, a prosa animada e o calor da fraternidade da vizinha é um conjunto melhor do que o café-da-manhã em hotel chique.
       

              Um copo de suco de caixinha não é igual a um copo de fruta fresca, colhida no quintal. Um frango alimentado com hormônio de crescimento, servido com nome francês, nem se compara ao frango com quiabo e macarrão feitos na roça. Aliás, o  macarrão industrializado não tem o mesmo sabor do macarrão caseiro da mamãe; nascida mineira, bisneta de italianos. Luz da minha alma errante. Para ela sou o homem mais bonito do mundo e sem defeitos. Isso, claro, quando meus irmãos Sinésio e Everton não estão por perto. Aí ela diz que todos são perfeitos.
        

               Olho em frente, ao alto, o sinal vermelho chameja ao vento que sopra nas lembranças paradas na esquina. O vermelho dança sob a chuva forte, no  vai e vem das ondas do tempo. Sou exato nessa esquina; passo por aqui todos os dias às sete da manhã. Busca uma rotina amena para encarar o mundo duro.  “Pontual como um grito de carnaval” recordando a poesia de Gilberto Mendonça Teles. Rubem Braga diz que acordar mais cedo faz o dia maior.
         

             Pisco os olhos, à esquerda vejo um homem com o guarda-chuva prata leva nos braços um ramalhete de margaridas coloridas. Serpenteia decidido entre os carros, talvez vá ao encontro da amada. As águas correntes no asfalto cedem aos passos do homem; calçado com galochas de plástico. Na esquina parada, onde só a chuva se movimenta, todos olham o homem passar com o semblante luminoso. Penso que vai com um pedido de casamento na garganta. Ou o motivo das flores seria outro? Melhor pensar que navega ao encontro da namorada.  
          

           Segue pela calçada. Olho-o através dos vidros embaçados até perdê-lo de vista. A esquina ficou vazia sem a presença dele. A chuva foi embora, no lombo do vento que voa para o lado do Bosque dos Buritis. A câmera lenta do tempo é desligada. Os motoqueiros aceleraram suas motos desvairadas. Alguns pedestres, mais afoitos, enfrentam os últimos pingos  da chuva fria. 
         
          

          O sinal abre passagem. O ônibus se antecipa aos carros. Sacoleja ao ritmo da dança de lobo guará. Os carros se movem.
          Não sei se vão ou vêm. Saio da esquina pela metade.
          Assovio uma música antiga nessa manhã chuvosa.

        Doracino Naves, jornalista: diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Culturalwww.raizesjornalismocultural.net, PUC TV, sábado, 12h30. Escreve aos sábados no DMRevista.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Portas do Além

Senador Canedo era só uma estação de trem; fim da linha de quem vinha de Araguari; começo de viagem para quem saía de Goiânia. Só havia a estação e singelas casas compunham o cenário de uma pequena comunidade do interior. Num final da tarde o sol, já cansado do dia, não alumiava de cima; era de lado que a luz chegava mostrando sombras. Longe, um tropel  anunciava a chegada de um burro carregado de lenha;  arauto de tragédia.

De cada lado um feixe amarrado equilibrava o outro; tinha um facão enfiado entre a lenha. Um homem estranho com passos lentos puxava a rédea. Suas roupas grossas feitas de algodão cru. Um chapéu de palha marrom cobria a cabeça grande. Na cara um bigode espesso. Do lado direito da boca um mascado cigarro de palha. Seu olhar, rasteiro, tinha sobrancelhas grossas e a testa franzida era o de um homem com cara de mau. O burro alazão parecia mais com gente do que aquele homem. Ia para o lado do único armazém do lugar.
  
As portas da venda do Zé eram feitas de ipê.  Toscamente trabalhadas por um formão impreciso; marcas bêbadas em desalinho. Duas bandas da porta davam para a rua principal, outra mostrava a saída para uma rua lateral onde morava um cachorro bernento; os vermes já tinham comido uma parte do seu lombo podre. De dentro da venda vinha um cheiro forte de fumo, cachaça e querosene. Num canto escuro, rolos de corda de bacalhau usados na lida do campo.

O homem estranho entrou, pediu uma pinga e um pedaço de fumo de Bela Vista. Mordeu um pedaço do fumo e o mascou fazendo careta como o diabo na presença de Deus. Jogou a pinga na goela, seu corpo arrepiou; náusea de ruindade. Cuspiu no meio da rua pedaços de fumo e cachaça. Com uma binga acendeu de novo o cigarro de palha que se apagara por falta de pitar. Deu duas baforadas e mirou a rua deserta. Uma lagartixa verde cruzou com a cabeça em sentinela.

Com o sol se aninhando por trás do morro Zé da Venda acendeu uma lamparina a querosene. Dentro do armazém escureceu mais rápido. Com um olho fazia contas; o outro observava o freguês incômodo. Viu quando sua botina rangedeira trouxe o fantasma para perto do balcão grosso de madeira.

- Quero uma lata de querosene, um rolo de fumo, duas braças de corda e uma garrafa de pinga em troca da lenha!

Seu Zé tremeu de medo. Era muito pela lenha. E nem era boa de fogo.

-Não preciso de lenha. Pode ir embora que não vou lhe cobrar o que já lhe servi.

O estranho, sorrateiro, foi até o burro pegar um facão. Quando enfiou a mão na lenha uma enorme cascavel saiu pendurada com as presas cravadas na mão direita do intruso. Um grito de horror:
-Cobra desgraçada!
Deu alguns passos e caiu de bruços. Suas narinas ofegantes do último suspiro sopraram a poeira da rua. Uma lagartixa correu pro mato. Seu Zé, sem pressa, enrolou um cigarro; com a lamparina perto dos olhos acendeu seu cigarro de palha. Outras quatro lamparinas foram acesas para velar o valentão que encontrou em Senador Canedo o fim da linha e o começo de outra viagem.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www. fontetv.net)

Com Sombras Não Se Brinca

Minha sombra está enterrada nos quintais de Porto dos Barreiros, perdida nos fundões das Minas Gerais. Ponho o ouvido no chão do jeito dos índios. Ouço os acordes de um violino tocando na igrejinha, no alto do morro; sinos chamam para a missa de domingo. Nas ruas de poeira um carro de bois ronca, numa tarde quente. O vento me traz o chuá das correntezas espumantes do Rio Paranaíba. Nas margens, do lado de Minas e Goiás, periquitos quebram o silêncio da mata fechada, abrigo de mosquitos fortes. Gilberto Mendonça Teles me fala com seu poema: “Algumas vezes eu me lembro duma tarde na roça: a poeira da boiada e o berrante cortando e dando nó...”. Dou uma tapa na memória. Volto à Goiânia nos tempos da pinguela do Bosque do Botafogo.

Por ela passavam sonhos. Aquele tronco de jatobá atravessado sobre o córrego  me levava ao Bairro Popular onde morava Anita, a moça de Hidrolândia. Bela morena de seios fartos com gosto de jabuticaba da beira do Ribeirão das Grimpas. Eu, pequeno roceiro chegado dos sertões de Minas estava deslumbrado com a cidade nova. O centro de Goiânia tinha cinemas, Fonte do Paladar, Lanche Acapulco, lambretas desfilando pela Rua 8. Meus olhos ficavam vidrados nessas novidades. O vaivém era na Avenida Anhanguera, no trecho entre a Rua 8 e o Cine-Teatro Goiânia. Por ali passavam os jovens de Goiânia. 

Para escrever essa crônica voltei á antiga pinguela. Hoje, lá existe uma passarela através da marginal Botafogo, na altura da Vila Nova. Um vereador diligente substituiu o tronco de madeira por uma viga de concreto. Coisas da modernidade.  Mas a passarela continua liame de sonhos que atravessam para o centro em busca de histórias. Vejo-me, do alto, como fantasma perambulando pelo cerrado seco destes dias sem chuva. Ufa! Que calor! Faço caretas de exaustão. As águas podres do córrego viajam rumo ao João Leite.

Ao lado, nas margens do Botafogo, passam carros apressados com outros sonhos. É tempo de eleição. Depois dela a nossa vida será melhor ou pior; depende de quem a gente escolher. Melhor será que a escolha seja pelo ideal que dá sentido à existência. Na política, como no amor, o mistério é a simplicidade. As convicções estremecem e deliram na singeleza dos gestos. A luz de um olhar atento enche o ser humano de glória. Nós, mortais, somos portais enterrados nos jardins do mundo em construção.

É preciso um pouco de tudo para fazer um mundo; cada um de nós guarda na alma desejos para viver melhor. Vejo, embaixo, o trânsito animado. Parado em cima da passarela não sei quem vem nem quem vai. Percebo que existem  sons que nascem da alma. Violinos, escondidos pelas lembranças, vibram como as cornetas de Josué tentado derrubar as vaidades humanas.
 
Desenterro as sombras dos quintais de Porto dos Barreiros. Ponho meus ouvidos na terra. Vejo luzes que cintilam ao som de cornetas. Abano a cabeça com esperança. Adeus sombras. Com elas não se brinca.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV ww.raizestv.net

Sofá Amarelo

Numa manhã de inverno o amigo Agostinho chega a minha casa, na 4ª Avenida, Vila Nova. 

- Dei o seu nome para ser padre.

- Padre? Eu? Ficou louco, Agostinho? Eu quero é ser oficial da Aeronáutica.

- Pois é, Doracino. Mas, o seu nome já foi para o seminário de padres, lá no interior de São Paulo.

Quem gostou de ouvir essa notícia foi a minha mãe; católica  fervorosa. Até acho que foi ela quem armou isso. Afinal, aos 12 anos, eu a acompanhava às novenas em louvor a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Igreja Matriz, em Campinas. Decerto ela pensava que eu gostaria de dirigir missa.

Pensei, humildemente: não sou tão bom assim para ser padre. Ainda ontem pequei. Na brincadeira de “passar anel” segurei as mãos de Diná  mais do que devia. Ela gostou e respondeu  com um sorriso brejeiro. Sorrindo piscou maliciosamente e deixou o anel comigo; meus pensamentos profanos foram longe. Dormi sonhando com as mãos macias de Diná se mexendo entre as minhas.

Imaginei-me impuro por pensar assim. Por isso não quis ser padre. Meus sonhos, literalmente, voavam pelo espaço: entrar na Aeronáutica, vestir a farda azul, pilotar um avião de caça. Quem sabe eu seria o herói de alguma mocinha sonhadora da Vila Nova. Diná, aquela de cabelos castanhos, olhos de amêndoas, que morava na Rua 210 era a desejada. Eu me via como Toni Curtis,  num filme americano onde era um piloto de guerra americano. Diná poderia ser a minha Janeth Leigh.

Queria encontrá-la no sábado de festa junina. O parquinho de diversões já estava instalado na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Vesti a minha melhor roupa de frio. No pátio da igreja tinha quermesse, barraquinha e correio elegante. Procurei Diná no parque. Não a vi. Numa barraca toda enfeitada de fitas e balões coloridos estava Diná com vestido simples de tafetá rosa. Na frente tinha florzinhas bordadas da cintura até o peito.

Fui com a intenção de enviar o correio elegante, um bilhetinho entregue a uma mensageira com palavras de amor. Diná tinha um irmão grande, maior e mais forte do que eu. E se ele abrisse o correio elegante?  Cocei a cabeça. E agora? Ah, já sei: “vou mandar um recado pela irmãzinha”. Novamente recuei com receio de que ela contasse á mãe. Deveria pensar noutra saída.

“Achei!”. O serviço de alto-falante tocava músicas com recados nos intervalos. Era a minha chance de me fazer ouvir. Mandei o meu nos decibéis possantes da Igreja; ecoou nos confins da Vila Nova.

“Alguém oferece a alguém como prova de amor e carinho. E esse alguém sabe quem”. Meu rosto corou ao ouvir a mensagem na voz estridente do locutor.

Corri de volta pra casa. Ainda hoje penso que nem Diná soube que fui o autor e ela o alvo da estranha e hermética declaração de amor. Escondido na sala ouvia vozes que falavam  do vexame aos meus ouvidos. Dava até para ouvir a respiração dos móveis na noite estrelada de junho. O sofá amarelo, amigo de sonhos, me abriu os braços. Apaguei a única luz da sala de um barracão de três cômodos em que morávamos. Havia paz, sossego e uma tênue esperança.


Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Chuva de Outubro

Desço a estrada de Anápolis rumo a Goiânia, depois da visita a um amigo enfermo. Olhos atentos à estrada; os pensamentos piscam imitando os pirilampos que voam sobre o chão queimado do Parque Altamiro de Moura Pacheco. O fogo destruiu a maior parte da reserva.

Não quero morrer agora. Ainda não cumpri meu papel nesse mundo. Por essa causa minha hora não chega. Será que ainda tenho uma missão a cumprir aqui?  Acho que não. Nem me julgo importante para merecer uma tarefa especial de Deus. Os anjos do Senhor, tal qual pirilampos, voejam sobre a minha existência.

Faço o inventário da minha vida. Jogo tudo na balança. Meus erros pesam mais. Sabendo que um dia tudo tem um fim, começo a compor os versos de espera da hora final. Fico igual ao namorado que espera a mulher: olha a hora, respira, fuma um cigarro, vê em volta, ouve sons. Escuta os passos cadenciados que tocam a calçada. O coração, movido pela ansiedade, bate descompassado. “É ela!”  Ainda não.

Está atrasada. Mas ele espera. Resolve esperar mais dez minutos. Se não chegar vai embora. Espera mais meia hora. A ansiedade o faz esperar mais. Por que demora tanto?  Finalmente o milagre: ela chega como presente do céu. O coração do namorado se acalma. Eu, com meu botões, penso no futuro.

Enquanto racionalizo a perspectiva do fim, sonho para celebrar a vida. Ao terminar a descida das curvas em declive chego à curva “Lá, Goiânia!”. Enxergo as luzes da cidade. Meus olhos piscam na velocidade em que mudo os pensamentos.

Deixo a BR-153; entro no Jardim Guanabara. Está bonita essa avenida que não sei o nome: larga, duas pistas cruzam o bairro de norte a  sul. Dali, rumo ao centro, tem um quartel. Lembro um poema de Gilberto Mendonça Teles.

-Teje preso!Ocê num sabe
que é proibido namorar
detrás do quartel?

-Teje solto! Nóis num sabia
que o sinhô era amigo
da mulher do coronel.

Depois do quartel uma chuva fina põe luz no asfalto. Os pneus chiam na pista molhada. Olho para baixo; tenho tontura quando baixo os olhos. Decidido, levanto a cabeça. A chuva, ao cair através das luminárias da Avenida Goiás, se transforma em gotículas de luz correndo pelo asfalto.

As ruas se transformam em rios. O carro, igual a um barco de sonhos, rompe as águas da enxurrada de outubro. Goiânia se fez uma ilha; eu também.


Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (http://www.fontetv.net/)


Foto de: Renato reis
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Labaredas Gordas

Não sou chique. Fui brega.  Acho que ainda sou assim. Daqueles que escrevia nas costas da foto dada à namorada: "Olha esta foto enquanto o original pensa em ti". Vergonha de ter feito isso? Claro que não. Pior era um amigo meu que carregava um espelhinho de bolso com foto de mulher pelada. Não era eu, tá? Não acredita? Fazer o que, né? Depois de abrir esta crônica falando que sou brega estou sem autoridade para insistir no contrário. Se bem que já confessei a minha ingenuidade de roceiro em outras crônicas. Na verdade ainda sou um caipira de Porto dos Barreiros.

A minha vinda para Goiânia, em 1958, burilou um pouco o meu jeito. Os meus contatos com outras cidades ajudaram nisso. Pois é. Hoje conheço Hidrolândia, Aragoiânia... Desculpe a brincadeira. Fiz isso para amenizar o que vou contar a seguir. Falando melhor, viajei mais longe um pouquinho.

Mas, a grande viagem que ainda faço é através do imaginário. Os meus sonhos e a minha utopia me cutucam a toda hora. Por causa desse modo caipira gosto de lidar com pessoas mais simples. Quando fui vereador em Goiânia, em 91 e 92, representei a última favela de Goiânia: o Morro do Aranha. Gil do Pagode, amigão dos “aranhas” morava no Bairro Popular. Por meio dele conquistei a amizade dos moradores da favela.

Procurei, durante o meu mandato, retribuir o carinho dos moradores. Ninguém ousava subir o morro sozinho; eu ia sem receios. Seus becos estreitos eram aterradores. Muitas vezes tive que subir, à noite, para atender ao chamado de algum morador. Numa delas, feita a uma mulher doente, me foi pedido um colchão de espuma. Ela, com tuberculose, dormia no chão úmido sobre um monte de jornais velhos. A favela ficava pendurada no antigo leito da estrada de ferro Goiânia-Campinas, no aterro do Setor Norte Ferroviário, onde um chuvisco era temporal.

Na manhã seguinte o Gil e mais dois moradores, todos negros, me procuraram em casa. Entramos num Fiat Uno, branco, rumo à loja de colchões, no Setor Pedro Ludovico. Na ida passamos por vários carros da polícia; alguns estrategicamente atravessados nos cruzamentos da Rua 90. Comprei o colchão, acomodei-o no porta-malas. Voltamos pelo mesmo caminho. No cruzamento da Avenida 136 percebemos que os carros da polícia militar fechavam o trânsito. Pelo retrovisor vi que um carro de choque vinha em alta velocidade. Os policiais apontavam armas pesadas para nós. Uma corneta ordenou:
                     
- Pare! Encosta o carro!

Paramos assustados. Estacionei em frente a uma loja de móveis. O Gil do Pagode tremia igual vara verde.

-O que eu fiz?  Juro pra vocês que não fiz nada de mal.
                 
-Desçam do carro com as mãos para cima!

Saí com a carteira de vereador na mão direita. Na parte interna tinha um enorme brasão da república.  O comandante da operação "passou um rádio" à central. Após alguns minutos de conversa entre os piliciais, fomos liberados. O Gil ainda tremia de medo.

-Quase fui fuzilado sem ver a Unidos do Aranha campeã do carnaval de rua de Goiânia.

Na Câmara, quando me preparava para subir à tribuna para reclamar do excesso da abordagem, recebi a ligação do Comandante da PM de Goiás. Educadamente me disse  que um carro com as mesmas características estava envolvido em um sequestro. Aceitei a justificativa e as desculpas feitas em nome da instituição. Volto ao conceito de chique e brega.

Às favas a frívola elegância. Sendo assim, prefiro a simplicidade das coisas do interior; a figura alegórica de um ex-voto retirada das telas do Omar Souto diz da graça da vida. Bela é a imagem de um roceiro diante de um fogão-a-lenha. Vê o fogo; viaja nas labaredas gordas e vermelhas das suas recordações. Meus cabelos cinza andam dentro da minha saudade.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net) 

Guilherme, Argos do Olímpico

Ando pela calçada Rua 70 rumo a Avenida Paranaíba quando vejo o Guilherme, ídolo do Vila Nova no fim dos anos 60, descendo pelo outro lado da rua. O iluminado centroavante caminha sozinho como andorinha sem beiral. Congelo a imagem e volto o relógio no tempo. O cenário é o antigo Estádio Olímpico.

Numa tarde qualquer de um domingo de futebol certo. O alto-falante do estádio Olímpico anuncia que o Vila contratou Guilherme três do URT, de Patos de Minas:  Guilherme, Zé Geraldo e Bajoso. Eles aparecem na boca do túnel dos vestiários, acenam timidamente  para a torcida. Guilherme se tornou ídolo e imprimiu com os pés a melhor poesia do futebol goiano. Seu estilo foi sublimado com a beleza do drible inesperadamente belo e mágico. 

Guilherme foi mais talentoso atacante do futebol goiano em todos os tempos. Anísio, motorista da Secretaria da Cultura de Goiânia, torcedor fanático do Goiás diz que o maior foi o Gibrair. Aceito sem polemizar porque o Gibrair também era do Vila.

Qual o beque que poderia parar o toque rápido e a ginga desconcertante do Guilherme? Ninguém foi capaz de imitá-lo na arte de tocar a bola e fazê-la brilhar como pirilampos na noite; o seu corpo desconjuntado se movimentava com incrível rapidez. Movia-se no velho Estádio Olímpico como bailarino do Bolshoi. Arte pura. Hoje, a televisão mostra jogadores ofegantes como velocista no final do percurso. Falta arte; sobra força física à maioria dos jogadores do atual futebol. Com a língua pra fora mais parecem cães depois da caça aos catitús.

Guilherme está ali, na outra calçada. Sereno, de cabelos grisalhos; um anjo com sua lira tocando solene sobre as ruínas fantasmagóricas do Estádio Olímpico. Lá, os acordes da sua arte de jogar ainda vibram como a lira de Orfeu. Sua alma deartista da bola esconjura o futebol televisivo e previsível igual ao jogo de vídeo-game. Guilherme, o argonauta do Olímpico bebeu na fonte de Virgílio para entoar o canto poético que salvou o Vila de muitos naufrágios. 

Ah, Vila Nova! Porque demora a ressurgir do limbo? Quando será que a Fênix vem mergulhar suas asas no futebol de ouro do Guilherme. Volta, Fênix! Faz seu ninho no Onésio. Faz o Vila Nova ressurgir das cinzas.

Volto à imagem ao tempo real. Guilherme dá um sorriso enigmático e passa. Olho em volta. A calçada do Bairro Popular parece viva. Ela se move como fantasmas sob os meus pés; a insuportável solidão me acompanha. Caminho sozinho pela Rua 70. Só a calçada.

         Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www. raizestv.net)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Pirilampos de Madeira

O trem, uma maria-fumaça que vinha de Araguari sacolejava e soltava fumaça pelas ventas. Nesta viagem havia lugares vazios na primeira classe, com bancos estofados de couro; sobrava gente na segunda classe de bancos duros de ipê. Amanhece, pequena cidade de Minas, ficara para trás. De longe, avistava-se a ponte sobre o rio Paranaíba; do outro lado, Anhanguera, a primeira cidade em Goiás. O sol, cor de pequi, caía do céu no fim da tarde. As árvores retorcidas do cerrado eram iluminadas pelo sol poente; espectros em movimento. A paisagem amarelada dava sinais de que estava com  sede. O vagão avançava sobre o barranco da serra, engolindo terra, dormentes e pedras; os trilhos faziam o trem chicotear noutra direção. Parecia uma sucuri esgueirando-se pelo sertão de veredas.

Fungando e gemendo avançou sobre a pinguela entre Goiás e Minas. Fungava e gemia sem parar. Mais rápido:
Fungaegeme! fungaegeme, fungaegeme.
Fiiuííí!
Tac...talac...tac..... fazia o trem ao passar pelas emendas da ferrovia. Dentro do vagão, cada um ajeitava-se no seu canto. Uma mulher jovem, com menos de 30 anos, rodeada por sete filhos abriu uma lata de bolachas caseiras feitas de polvilho. Deu uma bolacha para cada filho; quatro meninos e duas meninas; a caçula mamava no peito. Eu era o mais velho dos filhos de Dona Laudelina.
 
Escureceu rapidamente. Uma senhora, vestido de chita rosa, ofereceu farofa. Nenhum lugar do mundo era mais solidário do que a maria-fumaça da minha infância. Ali vicejava calor humano. A noite trouxe frio. Minha mãe estendeu um cobertor sobre nós, deitados no corredor do vagão. Um velho, fumando um cigarro de palha, estendeu outro cobertor. As faíscas da fuligem, liberadas pelo vapor do trem, formavam gotículas de luzes. Efêmeros pirilampos de madeira.
Um homem taciturno, terno de casimira cinza e chapéu de feltro, apressou-se em fechar a janela. As lágrimas das madeiras em brasa voavam pelo espaço querendo furar o terno fino de casemira. Seus sonhos viajavam com as brasinhas para além das janelas de vidro. As faíscas viravam cinzas. Outras eram acesas pela fornalha da locomotiva à lenha. 
 
O chefe-de-trem, um mineiro forte, negro com bigode de arame, farda azul igual à de um militar; quepe com cordinhas amarelas na aba e um apito amarrado com cordões brancos trançados, preso no bolso superior do casaco. Na mão direita um alicate com uma redonda haste de metal nas pontas. Ele soprava o apito com os pulmões para se anunciar; a artéria do pescoço estufava.
 
- Bilhete. Bilheeete!
 
O bilhete da passagem, feito de papelão era picotado e devolvido ao passageiro. No fim da viagem tinha três furos. Quem pegava o trem numa estação intermediária tinha menos furo no final do percurso. Em trajeto menor não tinha nenhum furo; mas o bilhete era exigido na descida. A população fazia festa quando o trem parava. Homens de ternos, mulheres com vestidos coloridos, meninos encapetados postavam-se nas plataformas.
 
Depois de muito sacudir nas tripas da sucuri de ferro, adormeci. Tive sobressaltos durante a viagem. O frio daquela madrugada se agarrou nas beiradas do alvorecer temendo morrer ao calor do sol. Acordo com o apito estrepitoso do chefe-do-trem que tinha pose de general:
 
- Goiânia! Estamos chegando à estação de Goiânia!
 
Taac...talaaac...taaac... soava as rodas-de-ferro, agora  mais lentas, sobre os  trilhos. O trem parou. Uma multidão de vendedores invadiu os vagões. O gerente de hotel entrou nos vagões oferecendo hospedagem barata.
 
- Mãe, eu vou descer primeiro e ficar no pé da escada, contando os meninos para ninguém se perder.
 
Um olhar de alegria, lento, acompanhou a chegada da família. Meu pai, Zequinha Naves, nos esperava na estação. O ar de Goiânia estava puro e azul;  as curvas das ruas rasgavam o cerrado. Maria-fumaça, cansada da viagem, espreitou os passos da esperança.

          Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)

Água Morna da Madrugada

Pisei firme na calçada do Parque Areião numa madrugada  de outono. Uma folha seca range sob o meu pé esquerdo; o mais próximo do coração. No romper do dia ainda calado, sem o roncar dos motores e buzinas dos carros, uma luz continua acesa na entrada da clínica de estética dos dentes; sorrio para abrir a sorte no novo dia. Um vento suave adormece o grilo notívago cansado da seresta da noite passada; estrela  sonora que repousa embaixo do capim orvalhado. À noite sua voz estará descansada e afinada para o show diário dos grilos. Nenhum canto de galo ecoa ao redor do Parque. Acho que o grilo se adapta melhor às cidades; o galo é timidamente roceiro, prefere os poleiros solitários na noite escura. Um grilo sozinho ressoa o seu canto como uma orquestra tocando em todas as direções.

No lado leste um lago se forma com o córrego nascente. Lavo o rosto na água morna da madrugada; respingos na cara de uma paixão sem sono. Acelero o passo.  Alguns caminhantes ficam para trás, outros passam trotando, talvez com o pensamento na lua. Todos têm sinais das cavalgaduras do viver no lombo. Boné à cabeça, agasalhos ou roupas leves, os caminhantes calçam tênis de marcas famosas. Levam penduricalhos tecnológicos na cintura com fios nos ouvidos igual zumbis sem olhos. Uns derramam na goela o líquido da garrafa; cospem de lado o catarro da nicotina. Outros engolem a saliva e caminham sem olhar para os lados.  O próximo é fantasma de sombras; caminhantes indignos de um olhar suave.

O olhar pode ser curioso ou fatal. A expressão reveladora do olhar de uma mulher é cheio de significado; símbolo a espera de interpretação. Da Vinci captou o enigma do olhar feminino em sua Monalisa. O olhar aceita adjetivos: olhar maneiro, carinhoso, rude, bisbilhoteiro. Olhar sensual e hostil. Ou olhar de secar pimenteira e matar passarinho na gaiola. Todos os olhares revelam o interior da alma.

Mas, felizmente ou não, o olhar obedece ao comando do coração. Minha caminhada de quatro voltas durou quase duas horas; nesta altura o sol já invadira a pista do Areião. Caminhar por tanto tempo cansa o corpo e prepara para as emoções do dia-a-dia.  Na última volta vejo, embaixo da mangueira, dentro do Parque, uma família começando um piquenique. Gente de todas as idades; de mamando a caducando. Um casal de mais idade que parece ser o pai ou avô da turma observa o movimento da família. Lençol estendido; por cima se vê quitadas e comida em vasilhas térmicas; garrafas de café e sucos. Pelo visto a turma vai ficar por ali o dia todo.

Na sombra da mangueira as mulheres oferecem biscoitos de goma e bolinhos de fubá. Círculos de pessoas, como átomos em volta do núcleo, formam grupos. Pessoas da mesma idade e ideias formam rodas embaixo da mangueira. Uma mulher, talvez a filha mais velha do casal de velhinhos, conversa com as pessoas.
Pisei firme na manhã do meu sonho. Uma folha seca estala dentro do coração.

Pepino Maluco

Dizem que em toda cidade tem um louco. Na Rialma antiga tinha a Sanfona; a Vila Nova, cidade dos construtores de Goiânia, tinha o Xaxado. Em Palmelo a doida era chamada de Cachoeira. Vivia atormentada pelos garotos que não tinham o que fazer. De longe, com um olho na Cachoeira e o pé apontado para onde deveriam correr, eles provocavam a doida. Pepino, o menor, era também o mais atrevido:

-A Cachoeira não me pe-e-e-ga!

Cada um corria para um lado.

Sem saber a quem pegar, ela arremessava uma vara ensebada no rumo dos garotos. Nunca acertava o alvo.                             

Jamais alguém soube de onde ela viera. A doida chegou sem deixar rastros na entrada. Todos curtiam a Cachoeira, mesmo sem saber a sua origem nem como vivia. Nos dias sem sol ela rondava as ruas de Palmelo com seu cheiro azedo de quem não tomava banho. Nestes dias, misteriosamente, ela desaparecia como o arco-íris depois da chuva. Para muitos a Cachoeira era um fantasma. Eu, ao contrário, sentia, literalmente, que ela tinha carne e osso. Com certeza mais carne, pois o seu cheiro de alho era  real.


Nos dias nublados ela andava pela cidade e, rápido, sumia igual fumaça no vento. Sem deixar marcas. Reaparecia no ventre da escuridão. Bêbada, chegava rindo e bailando, dizendo tolices com sua voz rouca. Conversava animada com um ser invisível que parecia acompanhá-la nas catacumbas do dia morto. Falava alto com votos de leviana felicidade.


Seus movimentos, imprecisos, eram reumaticamente dolorosos. O nariz tucano da doida despontava num rosto lacrado com a máscara da própria alma. Tinha verrugas de feiúra. Sua pele e roupas encardidas traziam o cheiro de alho. Um insuportável cheiro de alho! Num dia intolerável ela fumou um maço de cigarros Urca. Seu corpo mofo também cheirava a cigarro. Insuportável cheiro de fumo!  Na chaminé da sua casa, no fim da rua, os picumãs habitavam com morcegos defumados. Neste dia, em que as bruxas fugiram do quinto dos infernos, a única janela da casa ficou aberta. Pepino, curioso, pulou para dentro.


A janela da casa assombrada bateu desesperadamente contra si mesma; uma batida seca no portal grosso de aroeira. O vento passou o dia brincando de abrir e fechar a janela. E agora, quando o ar úmido e macio ressoar o pinote sonoro dos grilos, a noite chegará assustadora. Neste momento, a janela deseja que alguma mão bondosa tramela suas folhas para encerrar a missão diária: abrir e fechar. Para isso ela fora inventada por um pedreiro folgado que não sabia como fechar o último buraco da parede. Assim nasceu a janela: faltou tijolo para completar a parede. 


A noite chegou e as luzes foram se apagando; uma aqui, outra lá. Até ficar tudo escuro como breu. A escuridão também cobriu a casa de Cachoeira. Só ficou uma luz acesa na casa da mãe de Pepino que varou a noite no desfio de um terço. O dia chegou com o céu limpo e o sol brilhando. Na casa assombrada, agora vazia, a janela batia devagar com o vento passando através de suas gretas. O tempo também passou.

Anos depois, em Pilar, um doido que se chamava Pingo apareceu na cidade. Até os cachorros latiam quando ele passava. Os garotos, peraltas, provocavam a ira do doido:

- Pingooo!. Pingo de Cachoeeeira!

E ele atirava pedras para todos os cantos. Sem acertar ninguém.

Pois é, Pepino. Em toda cidade tem um louco.

                          Doracino Naves é jornalista, diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV