segunda-feira, 26 de maio de 2014 | By: Clara Dawn

Menina do Araguaia

Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em maio de 2014

                    Pôr do sol na tarde quente do Rio Araguaia.  Árvores, pássaros, buritis sobrepostos sob o céu cor de abóbora formam um cenário de teatro de sombras. Ouvem-se as aves barulhentas em busca de abrigo. Um lagarto sinimbu levanta a cabeça acima do tronco do pau seco; espectro testemunhal do fim de tarde quando a onça pintada sai da toca. Os rios Javaés e Araguaia ainda estão cheios. É a primeira lua nova do outono, começo de noite do dia 29 de abril de 1975, na Ilha do Bananal.

                    Marcílio, o piloto do batelão Menina do Araguaia, pintado de azul e vermelho, se prepara para mais uma viagem. Nas laterais, amarrados com cordas, há três canoas de madeira para o caso de naufrágio. A tripulação era ele e mais dois ajudantes. Uma névoa fina cobre o rio. O batelão abarrotado de utensílios, índios Carajás, e alguns brancos acostumados com o rio; homens, mulheres e crianças deitados em redes amarradas nas frestas do barco. O piloto liga o motor a diesel. Manobra preciso o barco para evitar os bancos de areia. Depois de cerca de duas horas os passageiros dormem.

                   Menina do Araguaia tem uns oito metros de comprimento e, talvez, quatro de largura. As batidas do motor ecoam longe. Marcílio se orienta pela mata ciliar igual a um motorista que baliza a estrada pelas faixas laterais do asfalto. Ele conhece bem o percurso do rio: as curva; barrancs; ilhas pequenas e árvores fincadas na areia durante as enchentes. Marcílio acumulara muita experiência nessas viagens. Enquanto isso pensa na família e possibilidade de reformar a Menina do Araguaia. Necessita de dinheiro para comprar o material: tinta, pincel, lixas; essas coisas.

                   Por isso não recusa nenhuma viagem, mesmo que seja imprescindível viajar à noite sem lua. Um crucifixo com a imagem de São Cristovão o acompanha sempre. Passa da meia noite. O batelão avança devagar no escuro da noite. Um tosco lampião ilumina o cubículo de onde conduz o barco. Por causa da névoa, o farol da proa mal ilumina um metro a frente. Valei-nos, meu santo, nessa noite de barco cego. O motor Perkins, retificado em São Miguel, faz o barco  deslizar sobre as águas ainda turvas do Rio Araguaia. Aquele contínuo bater do motor dá sono.

                  Nisso ouve o motor falhar; após, para por completo. Marcílio desce com a lanterna para verificar o que acontece. Depois de mexer rapidamente nas peças desiste e volta ao leme, pois algum obstáculo pode fazer o barco virar. De súbito visualiza uma árvore plantada com galhos secos no meio do rio.O batelão vai direto ao tronco forte da árvore. Talvez seja um jatobá de barranco que caíra nas águas com o bater continuado das ondas.

                   O choque violento reúne todos no centro do barco que roda como se estivesse dentro de um funil. As crianças choram no escuro. Mesmo sendo bons nadadores, os carajás, zonzos pelo rodopiar do barco, ficam quietos. Quando param de girar alguns correm de um lado ao outro sem atinar para o perigo do tumulto dentro de um navio. Marcílio, com receio de o barco virar, pede calma a todos. Olha em volta e não vê sinal da mata, nem visualiza coisa alguma; estão no meio da parte mais larga do Araguaia. O pior é que o barco, inexplicavelmente, continua parado no breu da noite sem lua.

                  Alguma coisa retém o barco nessa posição. Marcílio dá ordem ao ajudante para verificar a razão de o barco permanecer imóvel. anuncia com o tronco de ponta cabeça: é uma árvore, comandante, os galhos estão segurando nosso barco. Marcílio dá outra ordem: desçam as canoas e salvem-se. As mulheres e as crianças vão primeiras. Por último os homens.  Todos obedecem ao comando da grande alma do piloto, a quem conhecem há muito tempo. Os barquinhos ficam cheios de gente a ponto de transbordar com a superlotação. Ele recomenda: vão com cuidado até encontrarem um lugar seguro.  

                 O rio, as águas revoltas em torno da embarcação e todas forças da natureza prestam a última homenagem ao comandante que conduz aquele infortúnio. O batelão, com o casco avariado pelo impacto, começa a naufragar nas águas do Rio Araguaia. Marcílio, com pose de capitão do Titanic, afunda junto com a Menina do Araguaia.

                Depois da morte trágica o corpo do piloto nem flutua. 

              E o céu do alvorecer desse dia acorda com as cores do último pôr do sol. Os ribeirinhos até hoje reverenciam seu herói. 

Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em maio de 2014.

Torrentes de loucos


   
Publicada em 23/05/14 -Diário da Manhã - Goiânia - Goiás
  Vamos imaginar que eu e você, leitor, somos velhos amigos. Então, entre nós, há sinceridade para abrir os segredos guardados na memória e nas experiências da vida. O dia a dia, de recordações e vivências, é uma fonte de histórias interessantes. Acreditar nas percepções da vida é uma necessidade de quem escreve. Acredito no que escrevo; por isso alinhavo as histórias coloridas com o pincel da minha imaginação e faço a minha tarefa literária da semana com o pensamento no leitor. Se não tenho muitos leitores, gosto de pensar que é uma multidão.  

     Antes de prosseguir com o tema de hoje revelo o meu espanto com a escritora Patrícia Secco que mutilou a obra de Machado de Assis em troca de um milhão de reais do Ministério da Cultura. Ela jogou por terra a construção gramatical da linguagem única do autor de O Alienista que, nessa revisão, perdeu o encantado ritmo narrativo machadiano. E aí, Edival Lourenço? Pois é, professor José Fernandes. Agora que pensava ter aprendido a usar o ponto e vírgula, vem essa mulher, em nome do acesso à leitura, a retirar esse sinal de pontuação da obra fundamental do criador da Academia Brasileira de Letras. Completa heresia. Machado de Assis sem estilo é o fim da picada.  Mas, por pirraça, não paro de usar o ponto e vírgula; acho-o chique.

     Já que lembro Machado de Assis, escrevo no seu ritmo como se estive deitado em uma rede da Bahia; calma e buliçosa como são as baianas de Dorival Caymmi.  É manhã de sábado. Imagino o amigo leitor sentado numa cadeira na sacada do prédio ou debaixo de um guarda-sol de piscina; com as pernas sobre uma mesinha. Abre o jornal e lê as notícias do dia. No espaço que me é reservado no DMRevista está a minha crônica semanal.

      Cada um de nós tem um jeito de ler jornal. Posso imaginar o leitor dentro do carro a folhear com dificuldade as folhas do jornal sobre o volante. Como você me permite ser seu amigo imagino-o a pegar um DM antigo. Como não tem outra coisa para ler sente-se atraído pelo título desta crônica e lê.

       Quem escreve deseja encontrar um leitor imaginoso. Assim, a gente viaja juntos pelo tempo. Lembrando das boas e más coisas do passado como se fosse uma folha seca de laranjeira dentro de um diário de memórias ou o edifício que ruiu com o peso do telhado.  Para um autor que tem um leitor romântico o futuro de utopias é real. Mas, é preciso ter a fé de Abraão para perceber que existe algo verdadeiro no fim da linha.

        Aí, o leitor ajeita os óculos e começa a ler. Do modo como somos amigos sinceros, podemos imaginar tudo. Uma poesia de Fernando Pessoa faz psiu! “Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo”.

Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em maio de 2014.
segunda-feira, 21 de abril de 2014 | By: Clara Dawn

Deus é O Grande Arquiteto do Universo e Cristo A Verdadeira Luz

Estou na maçonaria há quase quarenta anos. Até hoje rejeito a crença no Grande Arquiteto como o ser superior. Gosto do Rito Emulação, de origem inglesa, que crê no Deus da Bíblia; o único Vivo e Verdadeiro. Deus é o autor de todas as coisas; arquiteto do belo, suave e arrebatador universo. Também é um primoroso Geômetra no processo criativo do simples e harmonioso mundo. Então, segundo a minha fé, O Altíssimo Deus Todo-poderoso é O Grande Arquiteto do Universo.  

Tendência maçônica predominante no Brasil o Rito Escocês revela que uma força qualquer criou o mundo e foi descansar; um deus morto. Essa ideia - nó górdio que confunde maçom e não maçom - é aceita pela grande maioria. Quem se orienta por essa concepção filosófica não acredita na revelação de que Deus é Onipresente, Onividente e Onisciente. Não aprovo o discurso de um Deus sem obra exterior. Cristo é a materialização inconteste do Criador na terra.            

O Rito Emulação crê na intercessão salvadora de Jesus Cristo definido nos rituais e preleções como a Verdadeira Luz. Existem duas tarefas dadas ao maçom em sua admissão: a construção do templo espiritual, arquétipo do Templo de Salomão, e o encontro com a Luz Verdadeira, ápice da perfeição humana. Na maçonaria na qual acredito, ou em qualquer sociedade que coloca a honra e a virtude acima das coisas materiais, o aspecto moral prevalece. Afinal, a maçonaria segue o princípio cristão do bem ao próximo. Quando alguém me diz que a maçonaria não possui dogmas dá vontade de dar um pulo para trás. A maçonaria que eu creio tem um dogma: Deus.

Noutros tempos o presidente de uma conceituada associação internacional de potências maçônicas me disse que sua meta é ter maçons livres numa loja livre. Lembro-me de que olhei fundos nos seus olhos e de sobrolho respondi-lhe que tal fato é a oficialização da suruba ideológica dentro das lojas. O interessante disso tudo é que uma grande parte dos maçons brasileiros nem sabe a orientação filosófica do rito da sua loja.  É falta de estudo de quem não lê; fato comum na vida dos nossos conterrâneos.

Parece bonito dizer “sou maçom livre numa loja livre”. Ou seja, “acredito em qualquer coisa que quiser numa loja que pode fazer o que seu Venerável quiser”.  Percebo que a maioria está ali pelo convívio social. Isso não é ruim, afinal a fraternidade é uma das suas divisas mais antigas. Talvez o pior seja a falta de informações sobre a essência dos rituais. Mais recente, diante da luta quixotesca pela da falta de sensibilidade sobre o papel da maçonaria no mundo atual, resolvi dar um tempo nas minhas atividades dentro da loja e me dedicar à literatura. Penso que a ideologia dos antigos, limitada ao interior das lojas, envelheceu e está superada pela era moderna. No Brasil ela sofre com a sua crise de identidade; nem é uma instituição iniciática, nem um clube de serviços.  

A Ordem maçônica, fundada 1717, é o fato histórico mais importante da história recente da humanidade, pois formulou uma filosofia própria a inspirar filósofos, historiadores, estadistas, artistas e escritores que passaram pelas lojas. A maçonaria é, então, uma escola de pensamento fundada em princípios iniciáticos das antigas corporações e guildas de operários da idade média que evoluiu com a entrada de pessoas mais cultas. O resto é fantasia. 

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (wwwraizesstv.net),  PUC TV, sábado, 13h30. Escreve aos sábados no DMRevista.
       
sábado, 12 de abril de 2014 | By: Clara Dawn

Oração à Loja

Os poetas, as crianças e os loucos reinventam o mundo a partir do nada. Gosto de loucos porque fazem o que os outros julgam impossível. Às vezes penso que o Criador age no espírito quando ignoramos os limites da vida terrena; aí Deus permite vôos mais ousados. Antes do nada existia Deus que fez o Big Bang e agora cuida da sua expansão; o Antes e o Depois é Deus. Ele é a causa e o efeito de tudo; o Senhor do tempo inexorável.
Falando assim, eu me lembro da Oração à Loja que escrevi há cerca de quinze anos, hoje decifrada nas lojas das três principais obediências maçônicas do Brasil. 

Oh, Senhor, Causa do Mundo, abençoa minha loja!
Seja ela um oásis onde todos os maçons encontrem harmonia e paz; onde todos os irmãos encontrem hospitalidade, compreensão e bons exemplos; onde a fraternidade seja para a edificação mútua; onde a boa vontade e a alegria sejam uma lareira aconchegante.


Oh, Senhor Deus e Grande Arquiteto do Universo abençoa e ilumina minha loja!
Seus alicerces sejam fundados no Teu amor e as paredes e colunas, respaldadas com tijolos da Tua verdade, que é a única e real proteção. Que os mestres sejam caminhos de abertura à Tua luz e à prática de Teus ensinamentos maravilhosos.


Oh, Senhor, abençoa minha loja!
Seja ela um modelo vivo da maçonaria universal, repleta de paz, como Tu criaste, em cujo progresso devemos decididamente colaborar.


Oh, Senhor Jesus, abençoa e conduz minha Loja!


Tua amorável presença ilumine cada canto, cada símbolo e inspire nossos amados irmãos, onde quer que estejam e em tudo que fizerem afim de que possamos entoar o Teu amor em todas as nossas reuniões.


Oh, Espírito Santo do Senhor, abençoa minha loja!
Restaura-a para que ela se torne, cada vez mais, uma fonte de inspiração divina, com característica verdadeiramente Cristã.


Na maçonaria abraço a concepção filosófica teísta que define Deus como o Ser Supremo. Essa orientação vem do conceito ritualístico que escolhi; o Emulação (no Brasil rito de York), praticado pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Da forma como acontece nas relações entre as pessoas, convivo com gente de todas as crenças: os que creem em Deus; os que não creem e os indecisos que acreditam que a vida é obra do acaso.

Então, na maçonaria, além da crença teísta, coabitam as mesmas correntes do pensamento mundano: os agnósticos dizem que Deus não existe; os deístas - uma espécie sempre em cima do muro - afirmam que o Grande Arquiteto do Universo é Deus(?). Também não aceitam nenhuma revelação divina; o que exclui Jesus Cristo. Releia este parágrafo para compreender a razão das diferenças filosóficas da maçonaria e entender como pensam os maçons a respeito de Deus.

Essa é a conclusão após estudos e pesquisas da história da maçonaria operativa, da especulativa e dos rituais em uso na maçonaria universal. Declaro-me teísta-cristão e, ao contrário dos deístas, e o Deus de Abraão, Isaac e Jacó é o Grande Arquiteto do Universo.

Creio, poeta Valdivino Braz, que somente Ele é capaz de inventar essas bolas chamadas planetas e estrelas flutuando no céu eterno.  

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (WWW.raizestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.      
segunda-feira, 31 de março de 2014 | By: Clara Dawn

Vento surdo

Outro dia, pensando nas notícias negativas da mídia, deparo com a manchete do Dário da Manhã Os pecados da Imprensa, em que o papa Francisco pede que ela saia dos assuntos  ruins e fale sobre algo construtivo para a vida das pessoas, da família e da sociedade; noticiar violência é promover a desinformação, visto que existem  fatos positivos que poderiam ser destaque na imprensa.

Pois é. Penso num leitor imaginário que pedisse para escrever sobre temais factuais da política e da violência. Recusaria na hora falar desses assuntos. Não sou articulista; gosto de pensar que sou cronista. Ser reconhecido assim talvez seja arrogância; sou aprendiz de cronista. Mas creio em tudo que escrevo. Nessa premissa recuso falar mala de alguém. Seria o mesmo que sentar no próprio rabo e procurar defeito no outro.

Basta-me os meus; motivo das minhas preces jaculatórias e clementes. Há momentos em que o tema morte assume o controle do que escrevo, a ponto de ouvir de outros que estou a escrever negativo. A morte não parece ser interesse ao vivente; é um tabu para muitos. Gostaria de entender o fim da vida terrena com a serenidade de Chico Xavier. Mesmo ignorante visto o chapéu de cronista da finitude.

Concordo com o poeta Jorge Luiz Borges quando diz que talvez você possa escrever melhor se deixar de lado os defeitos alheios. Em nossa volta existe uma aura poética misteriosa como se fosse uma senha para desvendar o coração do universo e ser útil ao leitor. É nesse tipo de escrita na qual acredito.

Venha comigo, você vai perceber que há bondade além das mazelas do mundo. Vejo encanto nas luzes refletidas no asfalto molhado, vistas do alto do prédio de apartamentos; os faróis e lanternas acesos imitam vaga-lumes com rabos de fogo. A moça apressada anda rápido para entrar no serviço; a marmita vai na sacola. O lavador de carros madrugador que amanhece para lavar os carros na porta do Sindicato dos Taxistas. O otimismo do feirante vendedor a anunciar produtos sem agrotóxico. A caminhada terapêutica dos idosos na Praça do Avião revela uma atitude, talvez, tardia de adiar o fim.

Há poesia e mistério no coração das pessoas. É só descobri-los com boa vontade. Aí, bem que a manchete do jornal poderia atender ao que idealiza o papa Francisco: “As virtudes da Imprensa”. 

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes 
sexta-feira, 28 de março de 2014 | By: Clara Dawn

O lago virgem - partes I, II e III

         
Acender a chama de pescador é só falar em pescaria farta.  Foi o que fez o Beto para motivar a turma de pescadores à procura do lago virgem e cheio de peixes. A cansativa travessia da mata densa deixara todos abatidos. Nem o guia podia imaginar a dificuldade em atravessar a mata fechada. Só então um dos pescadores perguntou ao Beto como ele soube que o lago era virgem.

            -Foi um índio Karajá quem me disse.

             Dico maneou a cabeça. Mas guardou para si aquele gesto negativo. O dia começara a clarear. Os pássaros na mata anunciam que o sol, inexorável na sua viagem pelo universo, abre passagem a onipresente luz da manhã. O vento suave, fresco, resoluto, cúmplice, afasta os galhos das árvores na tarefa de ajudar o sol a transpor a mata. Nada detém o vento e o sol que brilha nas gotículas madrugadoras caídas do céu. A luz  agradece e ilumina o ventre da mata.

          Nem a música afinada dos pássaros ameniza o semblante cansado da turma. A luz forte do sol mostra as rugas velhas, agora cansadas, do arauto do lago virgem. Sua figura de aparência rude esconde a doçura de alma ingênua, quase cândida. Em Luiz Alves, portal sul da Ilha do Bananal, Beto é um pescador desacreditado. Ridicularizado até. Quando sai com uma turma de pescadores os barqueiros ribeirinhos costumam despedir-se dizendo:

            -Vai lá, pé-frio. Vai dar isca pros peixes.

          Talvez venha da necessidade de mostrar o contrário que Beto se esforça tanto para uma boa pescaria. O cortejo rasteja cansado sobre as folhas secas. Ouve-se, ao longe, o som de um motor de popa que aumenta até parar.  Distingue-se vozes e o característico barulho de algo caindo na água. Viram depois que era uma “poita”, espécie de âncora feita de virabrequim de motor velho.

          Beto, eufórico, anuncia:

         -Chegamos. É o lago.

          Entre os pescadores há alívio pela chegada. Mas também decepção em perceber pescadores no lago tido como virgem. Chegaram à margem do lago. Apressaram os passos e depararam com uma turma de pescadores esparramada pela lagoa do tamanho de um campo de futebol.

          - Por onde vocês vieram?

          - Pelo meio da mata quebrando galhos para passar a canoa e a traia.

          - Não precisava disso. A lagoa é boca franca. A gente chegou aqui com o motor ligado, nem precisou de remo. Vocês só precisavam descer mais uns dois quilômetros e entrar no canal que traz ao lago. É fácil chegar até aqui!

           Toda a turma olhou para o Beto que se escondeu atrás de uma árvore de casca grossa. Nenhuma palavra foi dita; nem Beto disse nada. Talvez pensasse na sua atual fama de pé-frio. Àquela hora a fome era tanta que todos sentaram para esperar a comida. Osvaldinho, o cozinheiro, resolveu montar a trempe para cozinhar. Jogou óleo na panela. Adicionou tempero e deixou dourar. Enquanto isso ele  desceu ao lago. De cócoras lavou o arroz e a carne seca, sacudindo-a para que as larvas da varejeira desgrudassem da manta de carne. O cheiro de arroz refogado invadiu o ambiente silvestre.

              Havia em Beto algo que lhe dava a certeza de que a sua sorte iria mudar. Transpareceu entusiasmo suficiente para motivar a turma. Essa era a sua obrigação de guia de pesca. Mesmo que nenhum daqueles pescadores tivesse pescado um só peixe Beto confiava na sua sorte que o ajudara, no passado, a fisgar peixes grandes. Existe uma porta misteriosa que dá passagem ao pescador de sorte. Uma magia que percorre a vara de pesca e busca, no fundo das águas, o peixe desejado.

             O ânimo voltou a acender a alma aventureira do grupo de pescadores acontecendo fatos que vou narrar no próximo sábado.

Pirarucu, o rei do lago

      Beto idealizara essa pescaria para reconquistar a sua fama de bom pescador; perdida depois do literal jejum de peixes. Ganhara muito dinheiro pescando e trabalhando de guia de pesca. Porém, gastou tudo com a mulherada da zona de São Miguel. Talvez por isso morasse sem mulher nem filhos num rancho de palha à beira do rio. Beto conhecera bem as estações das águas, as espécies de peixes, os bichos da região, as fases da lua, as aves coloridas que, aos bandos, empoleirava-se nas árvores espetadas no terreno arenoso do Rio Araguaia. Mas, aprendera que para um bom pescador a sorte é mais importante do que a experiência.

       Na crônica anterior contei sobre os pescadores que se encontravam no lago virgem. Pois bem, desanimados com a escassez de peixes, foram embora no mesmo dia. Ficou a turma de Beto, cuja obsessão era pegar um peixe grande. Que a sua sorte não o abandonasse nesse momento de provação!

        Utilizaria de toda a sua experiência para favorecê-la. Estava atento ao movimento da água. Cau uma frutinha vermelha conhecida por “mata-fome”. O tucunaré pulou engolindo-a antes de cair na água. Uma onda grande, suave, diáfana, se formou nas profundezas do lago envolvendo o tucunaré. O pescador, intrigado, fixou o espelho da água procurando o insólito.

      Enquanto observava, filosofou em silêncio. “A poesia da água é a metapoesia da morte. A água é um elemento efêmero, traiçoeiro, que revela o fim”. Permaneceu calado quase vinte minutos. Sabia que “aquele” peixe viria à tona para respirar. Nada desviou a sua atenção. Nem o barulho da turma que se ajeitava para pescar. Um rebojo agitou as águas. O monstro submergiu impávido. Apareceu a cabeça do gigante. O resto do corpo deslizou sobre as águas.

    -Meu Deus, é um Pirarucu muito grande. Deve ser o pai de todos!

     Calculou mais de três metros; uns 200 quilos de peso. Mesmo impressionado resolvera nada dizer aos outros. Temia ser ridicularizado se dissesse o que vira. À tarde, a sua turma, decepcionada, decidira voltar ao acampamento. Beto, ao contrário, ficara para cumprir seu plano. Atlas, piloto do barco, tentou dissuadi-lo. Inútil.

       - Então, vamos deixar comida pra você. Fica a lona para montar uma barraca. Ah, tem uma canoa no outro lado do lago. Depois da pescaria deixe-a no porto de Luiz Alves.  

        Essa pescaria exigiria uma estratégia especial. Acendeu uma fogueira para que o fogo, que ardia no inferno e brilhava no céu, lhe devolvesse a sorte. Jogou a lona em cima das varas em forma de jirau prendendo as pontas com pesados galhos. Dormiu coberto com trapos sujos de um estandarte conspurcado pela má fase. No interior da barraca improvisada fizeram-se trevas, mas apontavam o caminho da luz.            

      O dia chegara à garupa da esperança. O vento leste remexera as folhas caídas na madrugada de espera. Uma zonzeira estranha invadira seu corpo. Levantou-se num impulso, caminhou firme rumo ao lago. Agradeceu a Deus, o Criador, pela maior conquista humana: a verticalidade.

       Examinou o lago à procura do peixe-rei. Esperto, ele não apareceu aos olhos do pescador. Talvez boiasse debaixo dos galhos arqueados sobre o lago.  Uma neblina rala se desprendeu das águas mornas, aquecidas pelo verão. Pássaros alegres romperam o silêncio sepulcral do ermo. Assim, vigilante, passou o dia. Anoitecera sem que Beto jogasse o anzol na água. Respeitou a vontade do peixe, o rei do lago.

         No dia seguinte, bem cedo, estava pronto para a batalha. Tudo fora calculado: aonde jogaria o anzol, quanta de linha poderia dispor para o caso de ele embravecer; isso era certo. O segredo para pescar peixe grande era não deixar a linha tesa por muito tempo. 

         Arremessou a isca disfarçada no anzol tipo gancho de açougue. Talvez a maior dificuldade, além de fisgá-lo, seria evitar ser devorado pelas piranhas vermelhas e candirus banguelas.

        Três horas depois a linha, tecida com fios de seda, foi esticada para dentro do lago. Depois afrouxa a linha, leve, que flutua sobre a água morna. Parecia que o peixe desconfiara da armadilha. Beto, experiente, ficou quieto. Conteve a respiração, permaneceu inerte. Seu suspense saltou sobre a  superfície tal qual pedrinha n’água.  

          O pirarucu engoliu a isca devagar. De repente um coice abissal. A linha deslizou acelerada como sarilho de cisterna queimando as mãos de Beto. Ele deu um tranco contrário cravando o anzol no bucho do peixe. Miríades de olhos ocultos observavam a luta de titãs. Fisgado, o peixe arrastou Beto com os calcanhares esquiando na terra. Bendita força da gravidade. Os pés tocaram a água. Entrou no lago até a cintura, mas suas mãos, sangrando, não desgrudaram da linha. Pensou: “Se a gravidade é um fardo que prende a alma, pegar este peixe será minha honra no  voo da superação”.

         A linha retesada entoou uma canção de vitória. O peixe gigantesco, atônito, saltou acima da superfície. Tentou se livrar do anzol. Mas, estava inapelavelmente fisgado. Os cabelos brancos e a pele enrugada do pescador balançaram numa imagem ambígua, misteriosa.

      

O fim da pescaria no lago virgem


         Com o pirarucu fisgado Beto lembrou a solidão do seu rancho na beira Rio Araguaia; sua luta pela sobrevivência, seus sonhos, seus pensamentos a respeito da vida miserável que o acompanhava desde criança. Mas, tinha saudade dos tempos em que a pesca abundante atraía amigos e admiradores. Fora um rei da pesca; a má sorte lhe tirara a coroa. Talvez a pesca desse peixe grande lhe trouxesse a sua reputação de volta.

         Aquele peixe enorme, o maior que vira em sua longa história de pescador, não se entregaria facilmente, pois o seu instinto era sobreviver. Num puxão brusco, que quase lhe tirou a linha das mãos, o peixe foi ao fundo do lago; depois arrancou em sentido oposto. Beto soltou a linha e o deixou viajar pelo lago. Deu-lhe, talvez, a última sensação de liberdade. Embora disposto a levá-lo ao porto de Luiz Alves, Beto o respeitava; fez-lhe todos os gostos até que a sorte apontasse o vencedor. Cada gesto dos dois parecia pensado e medido. Enquanto isso Beto permitiu que o pirarucu saísse para respirar a brisa fresca soprada por baixo das coivaras.

        O sol começava a se mostrar acima das árvores altas que cercavam o lago. Beto grudou as mãos na linha de fio de seda e a recolheu apressadamente; o peixe lutou fazendo força contrária. Suavemente seus braços, ainda musculosos pela lida, puxaram uns cinco metros de linha. O peixe forçou para escapar do anzol. Beto permitiu a linha correr novamente e a recolheu. Assim foi, até que o pirarucu, sentindo o estertor da morte, reunisse suas forças e, desesperado, saltou fora da água tentando se livrar do anzol.

       O pescador segurou a linha com firmeza sabendo que, quando descesse, o peixe  mergulharia até ao fundo. Suas feridas nas mãos doeram, mas não descuidou da linha. A dor da humilhação anestesiara sua dor, aumentando suas forças. O peixe grande, enorme como jamais pescara, dava sinais de que logo se entregaria. Exausto, mostrou a cara olhando respeitosamente o pescador. Soltou um ronco e se prostrou rendido. Suas escamas, nas cores prata e vermelha, brilharam á luz do sol.  

          Beto finalmente vencera o rei do lago. Cravou o arpão no peixe com o respeito que aquele gigante merecia. Foi um golpe de misericórdia. Era muito grande para colocá-lo dentro do barco. O jeito seria amarrá-lo atrás para levá-lo seguro ao porto. Temia de que as piranhas, ao sentirem o cheiro de sangue, atacassem o peixe. Outro perigo, os candirus, seriam capazes de, mesmo sem dentes, devorar a carne do peixe em minutos, deixando só a carcaça.  

          Desceu da canoa e, através da vazante estreita, pôs a corda no ombro arrastando o peixe até a foz do rio. Cravou os remos na alma do rio em catarse de suas dores. Singrou as águas determinado. Olhou para trás orgulhoso da sua conquista. Queria chegar ao porto de Luiz Alves. Àquela hora seus amigos pescadores estariam chegando.

           Desesperou-se ante a visão de um bando de piranhas vindo em direção do peixe. Ela sentiram o cheiro do pirarucu machucado. Rápidas, retiravam nacos da carne, num banquete macabro. Com o facão de folha comprida e afiada matou várias piranhas; porém, o facão revelara-se ineficiente para vencer as outras. Chegando à rasura, largou os remos e combateu-as ferozmente com o que tinha dentro do barco. Percebeu que seria inútil lutar contra milhares de piranhas assassinas. Ante a demora pelo socorro dos amigos que o ajudariam a tirar o peixe da água pulou no rio. Segundos depois uma onda vermelha, de sangue, envolveu o barco descendo mansamente o Rio Araguaia até se diluir nas águas borbulhando como se cozinhassem os corpos do Peixe e de Beto. Em poucos minutos as águas rasas se acalmaram. Um bando de curicacas sobrevoou o barco em grunhidos sinistros.

       O esqueleto do pirarucu permaneceu amarrado ao barco, uma visão estranha, mas resgatara definitivamente a imagem do velho pescador. O esqueleto de Beto ficara, para sempre, sepultado nas areias do rio igual poita de um barco de sonhos apontado para o céu.


(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 30/04/2011)