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segunda-feira, 21 de abril de 2014 | By: Clara Dawn

Deus é O Grande Arquiteto do Universo e Cristo A Verdadeira Luz

Estou na maçonaria há quase quarenta anos. Até hoje rejeito a crença no Grande Arquiteto como o ser superior. Gosto do Rito Emulação, de origem inglesa, que crê no Deus da Bíblia; o único Vivo e Verdadeiro. Deus é o autor de todas as coisas; arquiteto do belo, suave e arrebatador universo. Também é um primoroso Geômetra no processo criativo do simples e harmonioso mundo. Então, segundo a minha fé, O Altíssimo Deus Todo-poderoso é O Grande Arquiteto do Universo.  

Tendência maçônica predominante no Brasil o Rito Escocês revela que uma força qualquer criou o mundo e foi descansar; um deus morto. Essa ideia - nó górdio que confunde maçom e não maçom - é aceita pela grande maioria. Quem se orienta por essa concepção filosófica não acredita na revelação de que Deus é Onipresente, Onividente e Onisciente. Não aprovo o discurso de um Deus sem obra exterior. Cristo é a materialização inconteste do Criador na terra.            

O Rito Emulação crê na intercessão salvadora de Jesus Cristo definido nos rituais e preleções como a Verdadeira Luz. Existem duas tarefas dadas ao maçom em sua admissão: a construção do templo espiritual, arquétipo do Templo de Salomão, e o encontro com a Luz Verdadeira, ápice da perfeição humana. Na maçonaria na qual acredito, ou em qualquer sociedade que coloca a honra e a virtude acima das coisas materiais, o aspecto moral prevalece. Afinal, a maçonaria segue o princípio cristão do bem ao próximo. Quando alguém me diz que a maçonaria não possui dogmas dá vontade de dar um pulo para trás. A maçonaria que eu creio tem um dogma: Deus.

Noutros tempos o presidente de uma conceituada associação internacional de potências maçônicas me disse que sua meta é ter maçons livres numa loja livre. Lembro-me de que olhei fundos nos seus olhos e de sobrolho respondi-lhe que tal fato é a oficialização da suruba ideológica dentro das lojas. O interessante disso tudo é que uma grande parte dos maçons brasileiros nem sabe a orientação filosófica do rito da sua loja.  É falta de estudo de quem não lê; fato comum na vida dos nossos conterrâneos.

Parece bonito dizer “sou maçom livre numa loja livre”. Ou seja, “acredito em qualquer coisa que quiser numa loja que pode fazer o que seu Venerável quiser”.  Percebo que a maioria está ali pelo convívio social. Isso não é ruim, afinal a fraternidade é uma das suas divisas mais antigas. Talvez o pior seja a falta de informações sobre a essência dos rituais. Mais recente, diante da luta quixotesca pela da falta de sensibilidade sobre o papel da maçonaria no mundo atual, resolvi dar um tempo nas minhas atividades dentro da loja e me dedicar à literatura. Penso que a ideologia dos antigos, limitada ao interior das lojas, envelheceu e está superada pela era moderna. No Brasil ela sofre com a sua crise de identidade; nem é uma instituição iniciática, nem um clube de serviços.  

A Ordem maçônica, fundada 1717, é o fato histórico mais importante da história recente da humanidade, pois formulou uma filosofia própria a inspirar filósofos, historiadores, estadistas, artistas e escritores que passaram pelas lojas. A maçonaria é, então, uma escola de pensamento fundada em princípios iniciáticos das antigas corporações e guildas de operários da idade média que evoluiu com a entrada de pessoas mais cultas. O resto é fantasia. 

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (wwwraizesstv.net),  PUC TV, sábado, 13h30. Escreve aos sábados no DMRevista.
       
sábado, 12 de abril de 2014 | By: Clara Dawn

Oração à Loja

Os poetas, as crianças e os loucos reinventam o mundo a partir do nada. Gosto de loucos porque fazem o que os outros julgam impossível. Às vezes penso que o Criador age no espírito quando ignoramos os limites da vida terrena; aí Deus permite vôos mais ousados. Antes do nada existia Deus que fez o Big Bang e agora cuida da sua expansão; o Antes e o Depois é Deus. Ele é a causa e o efeito de tudo; o Senhor do tempo inexorável.
Falando assim, eu me lembro da Oração à Loja que escrevi há cerca de quinze anos, hoje decifrada nas lojas das três principais obediências maçônicas do Brasil. 

Oh, Senhor, Causa do Mundo, abençoa minha loja!
Seja ela um oásis onde todos os maçons encontrem harmonia e paz; onde todos os irmãos encontrem hospitalidade, compreensão e bons exemplos; onde a fraternidade seja para a edificação mútua; onde a boa vontade e a alegria sejam uma lareira aconchegante.


Oh, Senhor Deus e Grande Arquiteto do Universo abençoa e ilumina minha loja!
Seus alicerces sejam fundados no Teu amor e as paredes e colunas, respaldadas com tijolos da Tua verdade, que é a única e real proteção. Que os mestres sejam caminhos de abertura à Tua luz e à prática de Teus ensinamentos maravilhosos.


Oh, Senhor, abençoa minha loja!
Seja ela um modelo vivo da maçonaria universal, repleta de paz, como Tu criaste, em cujo progresso devemos decididamente colaborar.


Oh, Senhor Jesus, abençoa e conduz minha Loja!


Tua amorável presença ilumine cada canto, cada símbolo e inspire nossos amados irmãos, onde quer que estejam e em tudo que fizerem afim de que possamos entoar o Teu amor em todas as nossas reuniões.


Oh, Espírito Santo do Senhor, abençoa minha loja!
Restaura-a para que ela se torne, cada vez mais, uma fonte de inspiração divina, com característica verdadeiramente Cristã.


Na maçonaria abraço a concepção filosófica teísta que define Deus como o Ser Supremo. Essa orientação vem do conceito ritualístico que escolhi; o Emulação (no Brasil rito de York), praticado pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Da forma como acontece nas relações entre as pessoas, convivo com gente de todas as crenças: os que creem em Deus; os que não creem e os indecisos que acreditam que a vida é obra do acaso.

Então, na maçonaria, além da crença teísta, coabitam as mesmas correntes do pensamento mundano: os agnósticos dizem que Deus não existe; os deístas - uma espécie sempre em cima do muro - afirmam que o Grande Arquiteto do Universo é Deus(?). Também não aceitam nenhuma revelação divina; o que exclui Jesus Cristo. Releia este parágrafo para compreender a razão das diferenças filosóficas da maçonaria e entender como pensam os maçons a respeito de Deus.

Essa é a conclusão após estudos e pesquisas da história da maçonaria operativa, da especulativa e dos rituais em uso na maçonaria universal. Declaro-me teísta-cristão e, ao contrário dos deístas, e o Deus de Abraão, Isaac e Jacó é o Grande Arquiteto do Universo.

Creio, poeta Valdivino Braz, que somente Ele é capaz de inventar essas bolas chamadas planetas e estrelas flutuando no céu eterno.  

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (WWW.raizestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.      
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014 | By: Doracino Naves

Solstício de verão


      (Inspirado num conto do romancista francês André Mourais)

No sábado passado, dia 21, aconteceu, no hemisfério sul, o solstício de verão.  Começou a nova estação e o novo ano vem logo.  Enquanto isso no céu, sob a luz do oriente, se abre o santuário do Tabernáculo.

Dois iniciados dirigem seus potentes olhares para a terra. O primeiro é o Mestre, humilde e paciente a ensinar, e o outro, Aprendiz, ainda neófito, quer saber como é a vida na terra. O Mestre com voz pausada e simples começa o período de instruções.

Mestre
Aquele planeta, luminoso com a cor celeste, é a terra. Olhe mais ao sul, na orla banhada pelo mar azul. Aquele é o Brasil, que acaba de atravessar o solstício de verão e começa, para eles, um ano novo. Com mais atenção verá seus habitantes apressados a correr pelas ruas em busca de presentes mútuos. No final da correria celebram em festas noturnas com muita bebida.

Aprendiz
Fantástico, Venerável Mestre! Tudo está muito agitado. Homens e mulheres estão festivos; carregam pacotes cobertos com papéis coloridos. Vejo luzes piscando sem parar nas calçadas e fachadas das casas. Veja aquela mãe colocando presentes na árvore montada na sala! Que lindo de se ver: até os mais pobres gastam seu pouco dinheiro em presentes mais simples. Jamais poderia imaginar tanto amor em criaturas tão atrasadas.

Mestre
Além da sua condição miserável de se arrastar pela terra é uma raça corajosa. Ali está um exemplo: parte daquele estádio de futebol desabou matando dois operários. Sem desanimar, essas criaturas passageiras recomeçam seus pequenos esforços. Assim eles também se juntam nas grandes catástrofes.

Aprendiz
Pois é, Mestre. Nas primeiras lições o senhor me mostrou os terráqueos se destruindo nas guerras. Foi horroroso saber que, primeiro pelo fio da espada, depois, com tiros e bombas, cortaram cabeças e despedaçaram os corpos de seus semelhantes. Noutras vezes gases mortíferos asfixiaram multidões. É difícil compreender a fúria desses animais. Se hoje eles revelam bondade é porque repararam seus erros?

Mestre
Observe melhor e tire suas conclusões.

Aprendiz
Ainda há muito que fazer. As famílias estão sendo arrasadas pelo egoísmo das drogas. Por toda parte há navios nos portos, insetos disputam comida com os humanos. Por todo lado existem milhares de enfermos e famintos. Veja ali, Mestre, restos de comida no lixo. Nesse mesmo lugar onde há homens com fome, outros deixam o alimento apodrecer.

Mestre
Observou bem. É o mais louco dos planetas. Você o vê agora e se espanta com a desigualdade do Brasil. Da mesma forma que o vê hoje eu o conheço a terra a milhares de anos no curso da sua história. Após cada período de convulsão sucede outro de equilíbrio. Depois tudo recomeça. A sorte é que espíritos evoluídos chegam lá com a missão de paz, prosperidade e evolução. Pouco a pouco se tornam senhores do planeta.

Aprendiz
Donos de uma gota de lama, de onde os terráqueos são feitos.

Mestre
Para eles é o mundo. Mas Deus olha para eles com indulgência. Assim progrediram na ciência e nas artes. Breve entrarão um meio de evoluir no ócio criativo.

Aprendiz
Será que eles compreendem o seu papel nessa vida?

Mestre
O velho mestre abre um espaço por onde passam vozes de todos os lugares do universo. Vozes e ruídos chegam aos seus ouvidos. Os vigilantes, diáconos e obreiros do Tabernáculo estão atentos. O Capelão reproduz as vozes vindas do Brasil: Crise nos poderes – Desastres ambientais- Feliz Natal – Próspero Ano Novo – Drogas, corrupção – Estou perdido – Feliz Natal – Próspero Ano Novo – Violência nas ruas – Inflação - Feliz Natal – Próspero Ano Novo.

Aprendiz
Que confusão! Por que se misturam votos de festas e lamentações?

Mestre
Esse país, atualmente envolto no desencanto é o cenário de um tempo de prosperidade e o seu povo, a despeito das mazelas, será feliz. Logo seus campos estarão cobertos de relva e as flores do tempo de paz social haverá de inspirar seu povo rumo à plenitude do espírito. A ordem nasce da desordem. Assim caminha o Brasil.

Aprendiz
País estranho e cruel.

Mestre
Mas, é um dos mais belos da terra.

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (WWW.raízestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
segunda-feira, 1 de abril de 2013 | By: Doracino Naves

Avental branco


O príncipe Tamino, na escuridão de uma imaginária e densa floresta, clama desesperado por Luz. O seu grito de socorro ecoa forte: Socorro!, Socorro!, Socorro!. Assim começa a ópera A Flauta Mágica, composta magistralmente por Mozart. O cenário imaginado pelo autor talvez fosse a Floresta Negra, da Alemanha iluminista do século dezoito. No roteiro da ópera o sol surge devagar até iluminar completamente o palco.
               
Um majestoso coral canta solene: A glória do sol dourado conquistou a noite. O falso mundo das trevas conhece agora o poder da Luz. Depois vem a estrofe final: A beleza e a sabedoria haverão de iluminá-los com o sol. O iluminador do teatro joga do fundo do palco para plateia uma potente luz que cega a todos.  Depois dessa reação a luz se projeta para o alto com claro sentido simbólico. Percebe-se, na expressão de Pamino, o desejo de se religar ao céu.
            
Mozart descreve, nessa obra, a perambulação de um iniciado pelo caótico mundo material. Começa nesse ponto a fantástica viagem ao trono do espírito; morada eterna da honra e da virtude que se sobrepõem aos efêmeros valores da matéria. Essa peça de conotação iniciática é a alegoria da busca incessante pela Verdadeira Luz. E essa Luz, assim como o avental branco com pele de cordeiro, alude a Cristo.
              
O avental branco é oferecido ao iniciado como prova de estima e consideração por ter enfrentado e vencido a Rainha da Noite. Há, no meu entendimento da famosa ópera, íntima ligação entre a brilhante Luz, Cristo, e o avental branco simbolizando a pureza, a inocência e a paz. A cor branca, por reunir todas as cores, denota o sentido fraternal do amor cristão entre os homens.  Também simboliza santidade e reverência. Mozart revelou em sua obra transcendental, a intenção de ligar o seu espírito ao alto.  Posso perceber a insubstituível inspiração divina em toda criação artística.
              
É um presente aos olhos enxergar o campo de trigo branquejar para a ceifa; imagino, pela narração bíblica, a figura de Cristo, no monte, transfigurado em suas vestes resplandecentes e brancas.  O apóstolo Marcos, comprovando a eterna deidade de Cristo, conta nesse versículo a narrativa de Pedro, Tiago e João: Brancas como nenhum lavadeiro as poderiam alvejar.
                   
Interpreto o valor simbólico do Avental Branco mais antigo e prestigioso do que o Tosão de Ouro ou a Águia Romana. Mesmo a Ordem da Jarreteira, honrada e digna, não se aproxima da glória e da beleza do Avental Branco, ‘símbolo da inocência e o laço da amizade’. O princípio cristão assevera que Cristo nos honra sempre. É fundamental para chegar à sua gloriosa presença Lhe devotar toda honra. Então, se nunca O desonrarmos Ele nunca nos desonrará. Eu creio que tudo isso é verdade como vejo a lua prateada surgindo por trás da mata. Viajo em busca da Luz, tocando a minha flauta mágica para vencer os perigos escondidos na floresta. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 30 de março de 2013)

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultura, na Fonte TV (www.raizestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista
segunda-feira, 25 de março de 2013 | By: Doracino Naves

Águia Romana


Nessa manhã em que nuvens baixas acariciam Goiânia com gotículas de chuvas caindo mansamente sobre a cidade, destaco, da minha discreta janela, um bando de beija-flores voejando sobre o prédio do Augustus Hotel. Não são miragens, nem beija-flores de verdade, mas elas estão lá, pintadas com pincéis alados no alto do edifício.

Por que beija-flores e não águias foram pintadas no prédio do hotel com nome latino. Essa comparação simbólica, e a cidade encoberta por neblina, me faz lembrar a história das três legiões romanas derrotadas na célebre Batalha da Floresta de Teutoburgo, em 9 d.C . Os romanos, emboscados pela tribo germânica dos queruscos, foram abatidos um a um. O combate foi travado em meio a forte neblina nos bosques impenetráveis, cheios de colinas e barrancos. Um lugar perfeito para os nativos que conheciam muito bem os morros e brejos da região. As três poderosas legiões romanas foram totalmente aniquiladas. 

Essa derrota, conhecida como o Desastre de Varus, que os romanos esconderam por muito tempo, mostrou que mesmo o poderoso exército romano poderia ser vencido. Então, essa crônica sai da mente como convém a um cronista de boas intenções: associando utopias e retalhos da história do homem. Simão - judeu escravizado pelo exército romano que alistava soldados dos povos dominados para melhorar os pontos fracos da cavalaria - lutava sonhando com a cidadania romana ao lado do porta-estandarte.

Durante a batalha, o portador da bandeira sagrada foi atingido por uma lança e caiu morto. Simão sabia que era inadmissível abandonar a insígnia, mesmo na hora de perigo. Tomou-a com as duas mãos fazendo-a rebrilhar à frente da Legião Romana. Armínio, líder da emboscada dos queruscos, abateu Simão à espada. Em seguida tomou posse da bandeira mais poderosa da história das guerras. Os queruscos gritaram de alegria pelo feito do seu comandante.

Tempos depois, o então General Tibério, chefiou várias campanhas pelo local da derrota, recuperando o símbolo sagrado da Legião Romana perdido na Batalha de Teutoburgo. Retomou, assim, a posse da honrosa e antiga insígnia. A Águia Romana, distinção conceituada pelos romanos, criada em prata e ouro por Gaio Júlio César, em 104 a.C. é considerada pelos historiadores como a insígnia mais antiga. Augustus a fez de ouro puro tornando-a mais desejada.

Essa é a moralidade iniciática da história da Águia Romana: jamais abandonar a honra, a dignidade e o ânimo, mesmo nos períodos tormentosos da vida. E ao clarear essa história vejo soldados esfarrapados socorridos por crianças encantadas. Por isso eu posso ver o horizonte além das nuvens.

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista em 22 de março de 2013 - Goiânia - Goiás).

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (programaraizes.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
terça-feira, 5 de março de 2013 | By: Doracino Naves

Tosão de Ouro

Atravessar o mar Egeu sem destino em busca do Velo de Ouro fez Hércules parar os seus doze trabalhos e se juntar a Jasão e aos argonautas.  A lenda dos argonautas narra que o Velocino de Ouro foi feito por Frixo com a lã dourada do fulgurante carneiro que era inteligente e voava como um pássaro.  Exausto pela viagem vertiginosa sobre terras e mares na fuga para longe da Grécia, deu seu último suspiro no alto dos picos do Cáucaso, entre a Europa e a Ásia. Seu espírito subiu às estrelas formando o Carneiro do Zodíaco; a sua lã de ouro ficou aqui embaixo. A cobiça pelo talismã, segunda a crença, liberava riqueza e poder a quem o possuísse. Isso levou os seus donos a pendurá-lo num carvalho sob a guarda de um dragão que nunca dormia. Jasão foi encarregado a roubar o Velo de Ouro com a ajuda dos argonautas.
                     
Os alquimistas acreditam que essa lenda inspirou Felipe III, duque de Borgonha, a criar o Tosão de Ouro. Na prática Tosão de Ouro é uma Ordem de Cavalaria fundada para a defesa do reino e da fé cristã.  Para confirmar essa versão teísta, que julgo verdadeira, durante o ato de criação da Ordem de Cavalaria Tosão de Ouro passeou entre os convidados um carneiro vivo pintado de azul, emblema do Agnus Dei que tallis peccata mundi  - Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo – que é Cristo. Hoje o Tosão de Ouro é exclusivamente honorífico.
                      
Sendo assim, O Tosão de Ouro representa uma alegoria do Velho Testamento na qual aparece Gideão sendo preparado para a vitória sobre os vizinhos ambiciosos. Ele foi um homem valente, mas, durante um tempo se escondeu diante do domínio dos midianitas, beduínos primitivos do deserto da síria que saqueavam a agricultura e o rebanho dos hebreus. Gideão, preparando-se para a batalha, pede um sinal a Deus, na lã, com ou sem orvalho, no sentido de fortalecer a sua fé e provar a sua liderança. Deus primeiro responde com a lã encharcada. No outro dia a lã estava seca, porém, cercada de orvalho. A água transformou a lã do cordeiro no ouro da promessa.
                        
O Tosão de Ouro foi uma ordem cavalheiresca formada por líderes em defesa do bem. Quem lidera deve se renovar constantemente. Gideão foi um exemplo de mudança interior com muita fé. Tentando adivinhar o que ia ao seu coração, talvez ele dissesse: eu sou um homem nascido que procura nascer de novo. Quero me transformar. Assim, do orvalho da manhã renasce a vida cheia da força do eterno retorno. O dia seguinte surge com o dourado alvorecer.
                       
Considero o Tosão de Ouro uma boa imagem da superação. Seja na versão alquimista ou na concepção teísta a vida é pavimentada com pedras irregulares. Nossos pés, cascos de cavalos cegos, caminha sob caminhos  encorcovados onde o futuro é denso e escuro. Talvez daí venha o medo. Jasão ou Gideão tiveram medo, mas venceram-no.

                              Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV(www.raizestev.met). Escreve aos sábados no DMRevista. 
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 | By: Doracino Naves

Ordem da Jarreteira


Conta uma lenda inglesa que o rei Eduardo III, durante uma festa em Calais, chamou a condessa de Salisbúria para acompanhá-lo numa dança. Rodopiaram animados pelo salão na presença da Corte inglesa, inclusive da rainha. Durante a dança a jarreteira (liga) da condessa caiu. O rei apanhou-a no chão e ao devolvê-la notou intenso burburinho entre os presentes. Irritado bradou no idioma francês antigo: Honni soit qui mal y pense (maldito seja quem pensar mal) e essas palavras foram grafadas em letras douradas na medalha. Pronto. Estava criada a Ordem da Jarreteira, a mais antiga ordem de cavalaria militar britânica.  
               
A rainha Vitória, séculos depois, com apenas dezoito anos, assumiu o trono do seu país. Idealizou a Ordem da Jarreteira para defender os pobres e lutar contra a tirania. A Era Vitoriana, que durou 64 anos, expandiu o império britânico com duradouras conquistas na cultura, nos negócios e no campo social houve a abolição da escravatura. A Ordem da Jarreteira serviu lealmente à rainha. 
                   
O traje da Ordem da Jarreteira é feito, principalmente, por um manto de veludo azul com chapéu ornado em plumas de avestruz brancas. O conjunto é fausto e cavaleiresco como é a tradição inglesa. O tempo passou e, hoje, o príncipe Willian, o segundo na escala de sucessão ao trono da Inglaterra, dirige a Ordem da Jarreteira. O Brasil já teve um representante, foi o imperador D. Pedro II.
               
Na história da humanidade existem outras organizações que enaltecem a dignidade. O Tosão de Ouro, por exemplo, criado em 1430 por Felipe, o Bom, Duque de Borgonha, se tornou a mais elevada honra na Espanha e Áustria. Outro emblema honroso foi a Águia Romana, criada por volta de 200 AC, com a figura de uma águia sobreposta a um mastro. Por muitos séculos foi temida como o símbolo bélico da poderosa Roma Antiga.
                  
Desde então, outros países e instituições criaram comendas que ressaltam a honra, o trabalho e a dignidade. Destacar as virtudes humanas é uma forma de aproximar o ser humano do Sublime.
                   
Percebo uma fonte secreta a inspirar a invenção das coisas. Talvez exista um reino sobrenatural que nos chama insistente para trilhar o nosso destino.
                 
O homem vai de um degrau a outro e para. Depois se lança ao degrau seguinte na ânsia de atender ao desígnio secreto do espírito. As crenças pessoais, grilhões que nos prendem ao nosso mundo, retardam a compreensão de outras realidades. Mas, quando conhecemos a história do outro vemos nele um pouco de nós, de nossas angústias, de nossos dramas imaginários plasmados em tudo; pessoas e coisas.                               
            
No final da jornada talvez tenha um galardão guardado lá no alto; longe das nossas convicções individualistas.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 23/02/2013.
                
                
Doracino Naves, jornalista: diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. Escreve aos sábados no DMRevista.
  
sábado, 28 de julho de 2012 | By: Doracino Naves

Programa Raízes Jornalismo Cultural - Série Rememórias Cronistas de Goiás

Jornalismo Cultural é, antes de tudo, jornalismo. Por não ser necessariamente factual, o jornalismo cultural, no âmbito dos movimentos culturais, reporta um trabalho artístico ou literário para a apreciação do leitor ou ouvinte. O fazer jornalístico deve compreender as manifestações culturais lançando-as no palco social das inquietações humanas. Por exemplo, a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, tem mais símbolos e significados imbricados na obra do que a bela melodia e o figurino pomposo da idade média.
       
Sem perder de vista as características tradicionais da profissão, o jornalismo cultural deve pautar seus assuntos no interesse do receptor, fornecendo elementos e argumentos para a sua opinião. Afinal, o jornalismo cultural, na opinião de Daniel Piza, tem o dever de olhar para as induções simbólicas e morais que o cidadão recebe. O mais importante na lida jornalística é selecionar aquilo que deve reportar. Jornalismo Cultural é reflexão com o olhar crítico em todas as formas da manifestação cultural.

Não confundir isso com o conceito fast food da cultura de entretenimento; divulgação de agenda cultural e cobertura de eventos. Sem perder a leveza de estilo, o jornalismo cultural deve ser denso, reflexivo. Aprendi com Walter Benjamin, pensador da chamada Escola de Frankfurt, que, ao compreender e romper os limites da arte, o homem comum deve ter acesso à cultura para poder usufruir e avaliar a sua escolha. Vou tentar tornar mais clara a minha opinião sobre esse tema.

Recordo a ideia de dois estudiosos do assunto: Débora Lopez e Marcelo Freire no trabalho O Jornalismo Cultural Além da Crítica...: “O jornalismo de agenda, sem reflexão ou preocupação com as consequências e imbricamentos desse acontecimento, reduz o jornalismo cultural, transportando-o para aquém de seu conceito fundamental”. A abordagem erudita deve destacar o conceito acadêmico da mesma forma que abre espaço às demais fontes da cultura popular.

Um exemplo disso são as entrevistas e as reportagens com artistas e escritores, quando elas estimulam a imaginação das pessoas. Por ter nascido na roça e guardar minhas raízes bem arraigadas na minha maneira de ser, escolhi, ainda na faculdade, o jornalismo cultural como profissão. Descobri, com o foco na perspectiva geral do jornalismo, que a prática jornalística pode aliar o prazer a uma atividade rotineira. Daí nasceu o programa Raízes Jornalismo Cultural e os caminhos da entrevista e da reportagem.

Das conversas sofisticadas de Gilberto Mendonça Teles, Siron Franco, Darcy Denófrio ao tempero popular das falas de Antônio Poteiro e Ostecríno Lacerda, tive a alegria de ver o programa cair no gosto das pessoas mais simples. Já contamos quase 300 programas em mais de cinco anos no ar. Atualmente, a produção do programa está envolvida na série Rememórias – Cronistas de Goiás, em que um cronista atual homenageia um cronista goiano do passado.

O Raízes Jornalismo Cultural, desde o primeiro programa, propõe a quebra do padrão do jornalismo de agenda e a mera cobertura de eventos, inaugurando o jornalismo cultural de conteúdo. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 28 de julho de 2012) 

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (programaraízestv.net). Escreve aos sábados no DM Revista.
domingo, 6 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Treva visível


Neófito entra numa sala escura e vazia. Nenhum móvel, tapete, lamparina; nada. Só as paredes ouvem o iniciando. Neófito só percebe os limites do universo profano. Mas, dentro desse universo existem outros mundos; dentro destes coexistem universos paralelos estranhos a quem não é iniciado. A alma do homem é um terreno de experiências sagradas e multifacetadas. Woody Allen mostrou isso ao cruzar histórias na trama do filme Para Roma com Amor. Sentir, desejar, criar; eis a trilogia da arte. As histórias e os poemas surgem nas reflexões existenciais.

Os olhos de Neófito estão órfãos de objetos: a sala está nua; mas, não da percepção das estrelas. Ah, nessa sala tem portas imaginárias, paredes que escutam, piso que se movem e um teto estrelado; a zênite onde está o baú dos pensamentos.

 Neófito fica de joelhos no centro da sala; meio caminho para o Oriente. Respira fundo em busca de paz. Assim, alivia a alma dos anseios acumulados na espera; o ar sai do peito entrecortado e doído. Os pensamentos reverberam nas paredes zodiacais até se transformar em nova energia. Seus ouvidos captam um soluço. Isso parece impossível, pois está só naquela sala. Descobre que os seus ouvidos escutam o seu próprio gemido.

O frescor do ar entra por baixo da porta. Fecha os olhos para ouvir a sala respirar. Com os olhos vendados os demais sentidos são despertos. As paredes repetem vozes vindas dos confins do universo. A voz do tempo pede a palavra que atravessa o vazio da sala para anunciar o fogo, a água, a terra e o ar, elementos básicos da criação. Longe, um piano toca a Ave Maria de Gounod espiritualiza a sala; o ambiente agora se enche de magia. Uma voz se apresenta:

Sou a Parede do Ocidente. Estou logo atrás de você. Represento o sol poente, a noite extrema do cosmo que explica a finitude. Só a Luz Verdadeira pode me vencer.

Olhe para trás, no meio da Parede do Ocidente; sou a Porta. É, depois de passar pelo Guardião, que começa a caminhada. Se a intenção prosseguir, receba a senha para passar pelos muros da jornada.

Outra voz, com a alegria de crianças dançando no parque, responde:

Sou a Porta do Oriente; o berço da sabedoria eterna. É aqui que se aprende a fechar os olhos ao ódio e à maldade.  Quem chega nesta porta sem reserva mental, renasce pleno e verdadeiro. Chegar aqui significa abrir o coração à concórdia.

Psiu! Veja estou do seu lado esquerdo. Sou a Parede do Norte. É no Nordeste onde se coloca a pedra fundamental das grandes construções da terra. O planeta é um grão de areia cósmica que se fez rocha e da rocha uma montanha de rubis. Na alma do homem está o poema que ainda será escrito no clássico balaústre.

 Ei, olha à sua direita. Sou a Parede do Sul, onde é sempre meio-dia; aqui o sol nunca se põe. Tenho a cor azul igual ao Céu. É assim que quero ser olhada; com o olhar azul de criança que descobre o mundo.

 Olhe para cima. Aqui, bem no teto da sala. Sou o Céu. O firmamento celestial com estrelas, planetas e galáxias. É onde todos esperam chegar um dia com o auxílio da Fé, da Esperança e da Caridade. Muitas vezes, mesmo sendo o desejado, o homem ainda me vê como se fosse um mero ponto no firmamento; um lugar desprezível no espaço das vaidades.

Baixe os olhos, sou o Piso em preto e branco a nivelar os homens. Em mim se abrigam os mares, os continentes, os portos. Sou o chão sagrado e a mãe das três grandes oferendas aprovadas por Deus. A primeira, a pronta submissão de Abraão que ofertou seu filho Isaac; a segunda lembra Davi compondo Salmos para aplacar a ira de Deus. A terceira, ao trabalho de Salomão na construção do templo dedicado ao serviço de Deus.

 Baixe mais o olhar. Veja, nas entrelinhas da Palavra Sagrada, a partícula de Deus; o milagre divino que explica todas as coisas do universo. O homem nasce preso a uma corda luminosa que o liga ao céu. E, no viver terreno, se debate no cordão das descobertas. Muitas vezes enlouquece nas dores da ascensão. Ernesto Cardenal bem disse: “provar uma gota de Deus é ficar louco para sempre”.

A sala continua vazia, na penumbra misteriosa. Trinta e três rubis cintilam nas paredes de aparência vazia.  O reino das palavras se alimenta de fragmentos, de sonhos e sobem dentro de luminosas lanternas de papel.

As palavras se encantam com a luz.
Uma brisa suave enche a sala e o escuro, agora, é treva visível.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 07 de julho de 2012)


Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.programaraizestv.net). Escreve aos sábados no DM Revista.