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segunda-feira, 10 de novembro de 2014 | By: Clara Dawn

Trilogia do voto

Nesta crônica, véspera das eleições presidenciais de 2014, meu personagem Simão Sem Caráter tenta impor a sua vontade batendo as teclas do computador, despertado que foi pelo artigo “O herói sem caráter”, de Dora Kramer, publicado nesta semana. Travo, na alma, uma luta ferrenha com Simão Sem Caráter. Ele bate palavras desconexas; apago-as com o pensamento em não escrever desatinos. Nessa angústia de escrever... apagar... escreve de novo... deleta mais uma vez... peço ao personagem que se vá.
        
Dá sossego, Simão! Assumo o controle da escrita. Percebo, além das trevas do fanatismo político, movimentos visíveis de uma multidão a cantar com Geraldo Vandré “Pra não dizer que não falei de flores”. A voz rouca de Milton Nascimento me lembra “Coração de Estudante”. Daqui a algumas horas vou votar. Engulo metáforas de quimeras. Agora, meu personagem é o Eleitor.
         
Ele entra na sala - piso axadrezado - onde está a urna eletrônica; receptiva na espera, sonora ao confirmar o voto. Antes do voto, a cabine, em silêncio, compreende o sonho de Eleitor sobre a importância da sua escolha. Dentro desse sonho existem outros mundos, outras verdades; dentro delas coexistem universos diferentes ao seu ideal. O coração do ser humano é solo sagrado, multifacetado. Woody Allen mostrou isso ao cruzar histórias na trama do filme Para Roma com Amor. Sentir, desejar, votar, eis a trilogia do voto. O ato de votar em um candidato surge das reflexões sobre o que queremos.
          
Os olhos de Eleitor ficam órfãos. A sala está calada, mas percebe o brilho das estrelas. Essa sala tem portas que levam a outros lugares; parede que escutam gritos de socorro; piso que se movem sob os pés; um céu cheio de estrelas. A reverência ao voto é tamanha que, nesse instante, Eleitor fica de joelhos. Assim, alivia a alma do bombardeio da campanha eleitoral. O peito se enche com a esperança do voto livre. Os pensamentos reverberam nas linhas imaginárias do tempo. Os ouvidos captam um soluço antigo que clama por igualdade entre todos.  Mas ouve o seu próprio gemido.
         
Fecha os olhos antes de teclar; a sala respira fundo. De olhos fechados os outros sentidos são acordados. Das paredes ecoam vozes vindas dos confins do universo. Longe, talvez do outro lado da rua, um piano toca Ave Maria. O ambiente se enche de música suave. Uma voz se anuncia mansa e serena.  “Sou do Centro-Oeste. Estou perto de ti. Represento o sol poente, prenúncio da noite. Mas a Luz Verdadeira vai iluminar a sua decisão”. Na outra parede tem uma porta aberta.
         
“Sou a porta do Sudeste. Quem chega aqui renasce. Abra o coração à concórdia. Feche os olhos ao ódio e à maldade da mentira”. Eleitor se mostra receptivo às vozes que se manifestam. “Psiu! Sou do Norte. Lugar de mata e rios. No meio de uma reta ao Planalto, à esquerda, está uma região de um povo forte e valente”.
          
O Nordeste se apresenta. “Sou Nordeste, lugar onde se coloca a pedra de fundação das grandes construções. A Terra é um grão de areia cósmica que se fez rocha e da rocha nasce uma montanha de rubis a coroar os pensamentos de paz”.  As mãos de Eleitor vacilam antes de digitar o número.
         
Na ponta dos dedos está a memória ancestral do poema que será escrito no futuro.  “Ei, sou a parede do Sul, onde é sempre meio dia. Aqui o sol nunca se põe. Sou azul igual ao Céu. É assim de gosto de ser vista; com o olhar azul da criança que descobre o mundo”. Eleitor reflete mais um pouco. Vê, ao alto, uma luz pendurada por fios de prata. “Sou o Céu. Aqui habitam estrelas, planetas e galáxias. Guardo a Palavra Sagrada do começo do Universo. Ao meu lado está a Partícula de Deus. Essa partícula explica o mistério da Iniciação. O homem nasce preso a uma corda luminosa que liga-o ao Eterno. Mesmo assim o homem se debate no cordão das discórdias. Outro ponto chama a atenção de Eleitor.
         
“Sou o piso em preto e branco que nivela a nação brasileira. É no piso da terra que se abrigam os mares, os continentes e os portos. Sou o solo sagrado que dá tudo a todos, sem distinção. Por isso espero a fraternidade de todas as regiões num só projeto de vida. Somos uma nação multicolorida e igual na diversidade da sua cultura”. 

Eleitor dirige seus dedos ao teclado. Olha mais uma vez ao seu redor. A sala parece vazia, envolta em uma misteriosa energia. Os números dançam e se refletem nas paredes do zodíaco. O voto se alimenta de sonhos; sobem dentro de luminosas lanternas de papel. Tecla o número escolhido.  Cumpre-se a última etapa da trilogia do voto.  Da escuridão profunda nasce a luz.

Uma brisa suave enche a sala.

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, sábado 13h30. Escreve aos sábados no DMRevista. 
segunda-feira, 1 de setembro de 2014 | By: Clara Dawn

Tempo abafado seco

Noutro dia marquei mais um encontro com meus netos Júlio, Gustavo e Marcus Jr., num restaurante self-service. Nesse restaurante, perto de onde nós trabalhamos, a gente se encontra duas ou três vezes semana. Para ganharmos tempo ao trabalho o almoço é sempre rápido. Mesmo assim ainda sobra um tempinho para as conversas a respeito do cotidiano da cidade grande, onde a miséria e a loucura andam juntas. Existe, nesses encontros informais de avô e netos, uma aura amena e prazerosa.
              
O dia estava cinza, quente, abafado seco, com leve prenúncio de chuva temporã. Quando eles chegaram para o almoço eu já estava sentado longe da televisão colocada para os fregueses habituados a ver televisão na hora das refeições. Estava no horário do TRE com a sordidez política de alguns candidatos. Escolhi uma mesa pequena de quatro cadeiras. Naquele lugar simples com comida caseira, almoço nos dias da semana. Com tantas coisas a fazer nem dá tempo de almoçar em casa. E a comida por quilo custa menos do que em outros restaurantes. Porque com pouco dinheiro faço igual quando se tem um cobertor curto; encolher as pernas para cobrir o corpo.
              
Júlio chega primeiro; rosto jovial marejado de suor, depois de caminhar umas seis quadras até ali. Logo chega o Marcus Jr., que se senta em frente à televisão. Puxa assunto sobre o debate dos presidenciáveis na Band, ocorrido na noite anterior. Expõe sua opinião. Ouço com atenção. Continuo ouvindo com um discreto sorriso quando a opinião bate com a que penso. Por último vem o Gustavo com o porte de soldado cristão das cavalhadas de Santa Cruz de Goiás.
                
Essas conversas com meus netos, que faço questão de acontecer com regularidade, me mantém ligado ao mundo real dos jovens. Conto essa história sem a pretensão de teorizar ou propor filosofia. Falar sobre as engrenagens da realidade é um ato de fé que beira à ficção. Pelo que sei – e sei que nada sei – é assim que os romancistas trabalham sua narrativa. Há uma exigência imperativa: o universo do escritor deve ser verossímil.
               
Mesmo que um raio de fantasia caia na sua cabeça. Tantas coisas estranhas, tantos fatos improváveis acontecem na vida que é difícil de saber o que é a realidade. Esse é o tom realista por trás do texto de Paul Auster ao escrever O Caderno Vermelho. Numa passagem arrebatadora do livro ele conta a história de um menino que andava a seu lado foi atingido por um raio e morreu.
                 
Auster conta que fora a sua primeira e trágica experiência com a instabilidade das coisas. Essa minha história nada tem a ver com essa experiência de Paul Auster. Lembrei-me dessa passagem do livro por um devaneio qualquer. Júlio e Gustavo, sentados do mesmo lado da mesa de quatro cadeiras, quais siameses, desviam o olhar à outra mesa, esta de duas cadeiras. Tanto falo, tanto gesticulo que penso que, desta vez, ficaram desinteressados do que digo. De frente para eles uma moça de olhos verdes, perfeitos e jovens; o colo arfa na brandura do ar parado, abafado seco. Ela fixou o olhar na direção dos dois e sorriu com dentes brancos de esperança.
                
Fingi não ter percebido o flerte. Foi então que a televisão mostrou os gols da rodada com mais uma derrota do nosso amado Vila Nova diante de um grande público. No salão a maioria comentou a triste sina do Tigrão. Mas a alegria do reencontro superou os dissabores do futebol.
               
Lá fora as pessoas se movimentam com suas misérias e loucuras de mãos dadas. Voltei para o interior do restaurante. Tive a sensação de que estava vazio. Era somente a impressão quando percebi que uma multidão vai e vem sem parar; uma parte sem saber aonde ir. Marquei um novo encontro com meus netos.

                 
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, www.raizestv.net, PUC TV Goiás, sábado, 12h30. Escreve aos sábados no DMRevista.  
quarta-feira, 27 de agosto de 2014 | By: Clara Dawn

Passarinho afogado

Escrever me faz saber melhor o que não sei.  Um ato que abre a possibilidade de me descobrir quando me enxergo no outro. A inspiração artística é uma Graça Divina; o momento mágico em que o Ser se desliga das coisas humanas. Deus e o Silêncio criativo são presenças inefáveis. A Graça, imprevisível, pode chegar silenciosa num lampejo dourado ou se esvaziar dela por longos períodos.
                
Nesses momentos de inspiração a alma transpõe o mundo para encontrar a Graça nos deleites da poesia. Talvez seja correto dizer que toda arte provém de uma mágia transcendental. Quem sabe a gente pode afirmar que as obras primas dos grandes artistas são psicografias. Talvez...
                
Recordo de uma resposta de Alceu de Amoroso Lima – Tristão de Ataíde – à Clarice Lispector sobre “o que pretendem de mim os meus livros?”.
                
“Você, Clarice, pertence àquela categoria trágica de escritores, que não escrevem propriamente seus livros. São escritos por eles. Você é o personagem maior do autor dos seus romances. E bem sabe que esse autor não é desse mundo...”
                 
Quando escrevo prefiro a escrita mágica, poética, à escrita lógica, fundamentada somente no factual. O romantismo, simbolismo ou modernismo - resumindo as fases ou tendências da literatura: a revolução literária de 1920 somada às crônicas do mestre Rubem Braga são modelos suficientes para sacudir as favas penduradas na árvore do tecnicismo literário. Escrevo de olho na poesia singela da vida; subjetivo na objetividade característica do jornal.  O contraste entre a notícia crua e a interpretação pessoal do cronista dá força para esse gênero literário sobreviver. A notícia pode ser um motivo para a crônica, por envolver pessoas e situações interessantes. Mas, sob o ponto de vista literário, é dispensável. Perfeitamente dispensável. Pelo fato de que a crônica é livre para voar aonde a alma for.
                  
O cronista recolhe do dia-a-dia os fragmentos da vida, depois reúne tudo isso num texto organizado com a intenção de seduzir o leitor. É como tirar da água um passarinho afogado e dar-lhe vida.

Nesse processo gosto de tudo que me lembra a poesia...até do que escrevo. Às vezes...

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, www.raizesjornalismocultural.net, PUC TV, sábado, 13h30. Escreve aos sábados bo DMRevista.

segunda-feira, 21 de julho de 2014 | By: Clara Dawn

Sem poesia o mundo é preto e branco

Tem duas coisas que o escritor deve zelar. Uma é escrever só o que acredita. A outra é assumir a idade que tem, nem mais jovem, nem mais velho do que realmente é. O que eu devo escrever na minha idade?, e jamais o que eu, com sessenta e cinco anos, escreveria com dezoito.
                  
Quando o leitor percebe que a gente não é autêntico o que escreve perde o interesse. No meu caso nunca havia pensado em escrever crônica; nem outros gêneros literários. Minha primeira profissão foi contador. Comecei com dezesseis anos em Hidrolândia, interior goiano. Nesse trabalho criei rotinas para dar conta do serviço.
                
Naquela época existiam dois métodos de escrita contábil: à mão, escrito direto no livro Diário ou feito na máquina de escrever pelo sistema de ficha tríplice em que ficava pronto o Diário, o Razão e o livro Caixa. Depois os lançamentos datilografados eram impressos num caderno de capa dura com folhas em branco e enviado à Junta Comercial para registro. Quando fiz a opção pelo segundo método imaginava o final do Balanço do exercício.
                 
Descobri mais tarde que essa imagem platônica de como o trabalho ficaria no fim foi uma escolha pelo caminho moral. A minha obrigação era encontrar o meio mais fácil de arranjar os fatos na contabilidade. Então, hoje sei disso, ao construir esse universo que era habitado somente por mim, aprendia a escrever histórias.  Mas a decisão definitiva, que me pareceu fortuita na ocasião, foi o desafio do Batista Custódio que me convidou a escrever no Diário da Manhã. “Você sabe escrever?”. Respondi que era jornalista. A resposta veio fulminante: “Não perguntei se você é jornalista, perguntei se quer escrever no jornal.” Disse que nunca havia pensado sobre isso. Aí veio o desafio: “Por que não?”.
                 
Foi assim que decidi começar. Em perspectiva, penso que esse caminho estava sendo preparado desde quando começara a idealizar o meu mundo. A primeira leitura, que me fez sonhar, foi a coleção completa de Júlio Verne. Fiquei fascinado com as possibilidades das viagens inventadas pelo autor.
                   
Hoje a leitura que mais gosto é a poesia. Estou certo de que o poeta é o guardião da língua. Sem a poesia que encanta, a vida é o inferno. Somente a poesia - seja na literatura, na música, ou nas artes de um modo geral - é capaz de colorir nossa passagem pela terra. Noutro dia, numa crônica de Gabriel Nascente, - que escreveu o livro de poesia Biografia das Cinzas, premiado este ano pela Academia Brasileira de Letras - a respeito da morte de Ivan Junqueira, o poetinha, criado no Bairro Popular, foi genial: “Levar poeta para o cemitério é a mesma coisa que enterrar passarinho vivo”. É uma metáfora primorosa. 
                     
O poeta cumpre o destino de guardião de qualquer idioma: zelar pela sacralidade da língua é o seu dever maior. Ele é o exemplo do correto uso das palavras numa época em que a língua materna é conspurcada e imprecisa. Na minha idade acredito que essas coisas são importantes.

                    
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, www.raizesjornalismocultural.com, PUC TV, sábado, 13h30. Escreve aos sábados no DMRevista.  
segunda-feira, 30 de junho de 2014 | By: Clara Dawn

Piracanjuba, Caminho da Sorte

Dez horas de sábado, numa fila da lotérica de Piracanjuba - terra de Leo Lynce e Ney Teles de Paula – ouço as conversas animadas das pessoas simples do interior.  Não tenho o costume de espichar os ouvidos para ouvir o que o outro fala. Mas é impossível ficar alheio ao que acontece numa fila. Nessa minha fila todos se cumprimentam e o papo rola solto. Quem sai diz “até logo” e os que ficam, “Vai com Deus”!. Lembro-me de um soneto de Pablo Neruda que fala assim: Amigo, leva contigo o que queiras, e se assim desejares, dou minha alma inteira, com suas brancas avenidas e suas canções.
                
As filas do mundo devem ser alegres e solidárias como é a fila de Piracanjuba; pleno como são os versos de Lynce. Então compreendi que as filas são lugares próprios para aproximar as pessoas e fazer novas amizades. Essa fila popular me ajuda a fugir dos labirintos da alma, presa no formalismo da vida moderna da grande cidade. Quando um cronista se vê numa situação assim pensa no sentido de extrair lições do viver cotidiano das pessoas. Nesse apreender a imaginação bate asas e voa alto. É o que faço agora.
                  
Retenho na mente tantas maravilhas quanto é possível à minha percepção. Com elas arquiteto a estrutura das histórias que narro aqui; conheço bem meus limites literários. Dédalo, pai do sonhador Ícaro, fez dois pares de asas e deu um ao filho. A intenção das asas era escapar do Labirinto de Creta, de onde nem  Minotauro conseguira. Advertiu, porém, que não deveria voar muito alto, pois as asas seriam ser derretidas pelo calor do sol.
                 
Sempre penso nisso quando vejo o que escrevi perto da primorosa criatividade de Rubem Braga; derrete-se como se fossem as asas de Ícaro próximas à luz. Para amenizar a abissal diferença encontro em Willian Falkner - prêmio Nobel de Literatura de 1949, ano em que nasci - um suave e estimulante consolo. Ele diz sobre a sua obra: Todos nós fracassamos na tentativa de alcançar nosso sonho de perfeição. Por isso, nos avalio de acordo com o nosso esplêndido fracasso ao tentar fazer o impossível. Falkner reconheceu que fracassara ao escrever poesia e contos. E, fracassando nisso, começou a escrever romances. Para chegar à perfeição continuou a escrever alguns dos mais importantes romances da literatura americana. Em cada um deles explodiu a sua capacidade criativa. Mesmo diante do sucesso dos seus livros estava convencido de que se reescrevesse toda a sua obra faria ainda melhor.
                  
Por acreditar que o fracasso pode estimular a dar um passo  adiante é que tento todas as semanas o desafio saudável de aprimorar o que escrevo. Sou um artista determinado a ser melhor do que eu mesmo. Os grandes escritores são deidades que observo e me inspiro. Leio a todos pelo deleite da leitura e com o objetivo de aprender.
                    
Continuo na fila da lotérica até chegar a minha vez de ser atendido. Confortável no convívio com  aquelas almas ingênuas e arrebatadoras decido ficar ali mais um tempo. Alguém conta um bom causo. Todos rimos. 
                   
É engraçado, amigo. O texto é de Neruda. Que importa! Ninguém sabe entregar em mãos o que se esconde por dentro, mas te darei minha alma, ânfora de mel suave, e tudo te darei...Menos aquela lembrança...
                  
Onze horas. Saio da lotérica Caminho da Sorte com as expressões, palavras e sentimentos das pessoas bem marcados na memória.

                 
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 13h30. Escreve aos sábados no DMRevista.
segunda-feira, 2 de junho de 2014 | By: Clara Dawn

Néctar dourado

 Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 31/05//2014
 Escrever é retirar o pensamento da clausura. A palavra, como se fosse deus grego, pode ficar invisível ou desaparecer sem aviso. O verbo vai e vem feito uma brisa a conduzir afetuosas opiniões. Às vezes o texto se impõe por intermédio de uma personagem ou aparece num raio luminoso que põe a sua marca no processo criativo. Noutras foge como se fosse icor, o néctar dourado que flui das artérias da alma.
  
                 Atena! Oh, sábia deusa Atena! A graça divina do pensamento flui no verbo e na invenção das artes, da mesma forma em que concedestes a Diomedes o poder de enxergar os deuses invisíveis da mitologia grega. Concedas aos artistas a ousadia do jovem rei de Argos que rasgou o delicado vestido de Afrodite com sua lança; fez Apolo sair da nuvem de poeira e expulsou Ares à mansão de cristal do Monte Olimpo. Na cultura de todos povos, Afrodite representa a beleza literária. Apolo, a inspiração artística. Ares, símbolo do medo, brande a sua acha gigantesca na luta contra as invenções do espírito do homem.

                  Leva-nos, Atena, ao alto do Monte Pérgamo, onde Apolo colocou Eneias - filho da deusa Afrodite e do mortal Anquises - para formar a descendência romana e a linguagem latina. É deste lugar, sábia Atena, de onde vêm as gotas de ouro da inspiração que cai no registro da Flor do Lácio. A língua portuguesa imprime com sangue latino a verve de Camões, precursor da poesia expressa em nosso idioma. O autor de Os Lusíadas inicia nessa epopeia o grande desafio que estabelece a mais forte influência da literatura brasileira.

                  A língua portuguesa tem regras lógicas, inclusive a crase. Fique sossegado: crase não é tão feia quanto se imagina.  Basta entender o conceito do que é a crase. Para começo de conversa, não existe crase antes de palavra masculina. Apolo não andava a cavalo. Percebe? Não tem crase. Há uma exceção quando se usa moda ou maneira. O herói do desenho usa o martelo à Ares. Aí tem crase.

                   Também não se usa a crase antes de nome de cidade. Exceção quando se atribui uma qualidade à cidade: Vou a Grécia não tem crase. Mas, se eu disser: vou à Grécia de Platão tem crase. O uso da crase tem outras regras práticas. Essa crônica está ficando chata. Devo encerrá-la.

                   A palavra saiu sem dizer aonde ia. Os personagens dessa história partiram envolvidos num raio luminoso rumo a uma montanha bem alta. E o pensamento ficou preso na impossibilidade de escrever mais. 


Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 31/05//2014. 

                 
segunda-feira, 26 de maio de 2014 | By: Clara Dawn

Torrentes de loucos


   
Publicada em 23/05/14 -Diário da Manhã - Goiânia - Goiás
  Vamos imaginar que eu e você, leitor, somos velhos amigos. Então, entre nós, há sinceridade para abrir os segredos guardados na memória e nas experiências da vida. O dia a dia, de recordações e vivências, é uma fonte de histórias interessantes. Acreditar nas percepções da vida é uma necessidade de quem escreve. Acredito no que escrevo; por isso alinhavo as histórias coloridas com o pincel da minha imaginação e faço a minha tarefa literária da semana com o pensamento no leitor. Se não tenho muitos leitores, gosto de pensar que é uma multidão.  

     Antes de prosseguir com o tema de hoje revelo o meu espanto com a escritora Patrícia Secco que mutilou a obra de Machado de Assis em troca de um milhão de reais do Ministério da Cultura. Ela jogou por terra a construção gramatical da linguagem única do autor de O Alienista que, nessa revisão, perdeu o encantado ritmo narrativo machadiano. E aí, Edival Lourenço? Pois é, professor José Fernandes. Agora que pensava ter aprendido a usar o ponto e vírgula, vem essa mulher, em nome do acesso à leitura, a retirar esse sinal de pontuação da obra fundamental do criador da Academia Brasileira de Letras. Completa heresia. Machado de Assis sem estilo é o fim da picada.  Mas, por pirraça, não paro de usar o ponto e vírgula; acho-o chique.

     Já que lembro Machado de Assis, escrevo no seu ritmo como se estive deitado em uma rede da Bahia; calma e buliçosa como são as baianas de Dorival Caymmi.  É manhã de sábado. Imagino o amigo leitor sentado numa cadeira na sacada do prédio ou debaixo de um guarda-sol de piscina; com as pernas sobre uma mesinha. Abre o jornal e lê as notícias do dia. No espaço que me é reservado no DMRevista está a minha crônica semanal.

      Cada um de nós tem um jeito de ler jornal. Posso imaginar o leitor dentro do carro a folhear com dificuldade as folhas do jornal sobre o volante. Como você me permite ser seu amigo imagino-o a pegar um DM antigo. Como não tem outra coisa para ler sente-se atraído pelo título desta crônica e lê.

       Quem escreve deseja encontrar um leitor imaginoso. Assim, a gente viaja juntos pelo tempo. Lembrando das boas e más coisas do passado como se fosse uma folha seca de laranjeira dentro de um diário de memórias ou o edifício que ruiu com o peso do telhado.  Para um autor que tem um leitor romântico o futuro de utopias é real. Mas, é preciso ter a fé de Abraão para perceber que existe algo verdadeiro no fim da linha.

        Aí, o leitor ajeita os óculos e começa a ler. Do modo como somos amigos sinceros, podemos imaginar tudo. Uma poesia de Fernando Pessoa faz psiu! “Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo”.

Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em maio de 2014.
domingo, 9 de março de 2014 | By: Clara Dawn

Vento na gaveta

Guardo um pouco de vento dentro de uma gaveta desde o dia em Deus soprou nas minhas narinas e mandou que eu assumisse a vida. A seguir pôs sal na minha moleira para ter bom senso; juntou mais um raio de luz para clarear o caminho construído sob as pedras da existência. Depois ordenou ao anjo protetor para me levar à Sua presença no fim da jornada. Pois é, o ponto alto da missão de um anjo da guarda é levar seu protegido até Deus.
  
Significa que a alma precisa da proteção do Guardião para chegar inteira e castiça ao Juízo Final.  Aí, nesse getsêmani dos mortais, é onde a porca torce o rabo. Na ópera O Sonho de Gerontio, baseada num texto do Cardeal John Henry Newman, Elgan fala do caminho da alma desde o leito da morte até ao julgamento de Deus.  É uma passagem mística difícil de explicar na estrita linguagem das letras.
    
Os rituais da igreja católica e das sociedades iniciáticas, tipo maçonaria, são codificados no sentido de verbalizar a linguagem atemporal das experiências místicas. Transmitir a magia daquilo que a inteligência humana não consegue explicar depende do mestre e de quem aprende; não é culpa da Arte Real. Entre as artes humanas, penso que apenas a poesia e a música conseguem abrir a cortina das metáforas do espírito. A música mal elaborada, sem harmonia e letra pobre, desperta o nosso espírito de porco. Isso também é uma metáfora; vista do limbo, é claro.
    
Na literatura existem algumas obras consideradas malditas. A gente poderia falar sobre dezenas delas. Lembro-me de uma: O Morro dos Ventos Uivantes, história de amor criada por Emile Jane Brontë, que chocou a sociedade inglesa da metade do século dezenove. Essa obra prima contém romance e suspense numa história instigante. Uma poesia de Dickinson para compreender a alma da autora: “Suaves caem os sons do Éden/Em seu ouvido absorto/Ó que entardecer no céu/Quando Brontë lá chegou!”. Sombrio!
     
Mas, o vento na gaveta sopra uma pérola luminosa do Real Arco: Sobre uma lâmina de ouro acha-se esse grande, impressionante, tremendo e incompreensível Nome de Deus. Ele significa EU SOU O QUE SOU, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último, quem FOI, É e VIRÁ A SER; o Todo-Poderoso. O Sagrado e Misterioso Nome do atual, futuro, eterno, imutável e todo-suficiente Deus, que tem Sua existência, unicamente, em e de Si mesmo, e a todos os outros dá vida; de tal modo que ELE É o que ELE FOI, FOI o que É, e deve permanecer tanto O QUE FOI quanto O QUE É, de eternidade em eternidade, sendo todas as criaturas sujeitas à Sua forte vontade e poder.
     
Sigo a vida com o vento querendo sair da gaveta; o sal tempera pouco; a luz fraca persiste em desviar o foco do meu caminho. O anjo da guarda tem muito trabalho comigo; sou tão ansioso quanto o vento que sopra para o Oriente. Chegarei cansado e empoeirado à eternidade.

      
Doracino Naves, jornalista, diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, Sábado, 13h30(www.raízestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014 | By: Clara Dawn

Truão sonhador

     Quando vejo pessoas tristes dá vontade de contar uma história tão interessante que as façam sorrir até chorar de alegria.

         Noutro dia, no elevador do prédio onde trabalho, encontrei uma moça aos prantos com soluços doídos. Disse-lhe: nenhum homem ou situação alguma merece suas lágrimas. Ela riu com os lábios fechados, mas continuou a chorar. Preferi não perguntar o motivo do choro. O elevador desceu macio: 3,2,1,T. Parou aí. Ela desceu antes de mim que iria à garagem. Percebi que chorava menos do que quando entrou. Agora tem uma aparência resignada. Despediu-se com uma leve aceno de cabeça. Mas ainda vi que algumas lágrimas insistiam em correr pela face redonda de santa católica daquela jovem.

          Sublimei a moça chorosa: vá com Deus! Ela sorriu com um canto da boca e saiu do elevador. Em outros momentos da vida já vivi situações assim. Nesses momentos minha vontade é escrever uma história capaz de tirar a tristeza das pessoas. Escrita com palavras de veludo, a graça do palhaço de circo no picadeiro e a carinha meiga de um bebê rechonchudo.  Que tal história seja mágica a ponto de fazer marido e mulher rirem um para o outro com a mágica do primeiro encontro.

         Pois que a história - se eu pudesse criá-la com o espírito que imagino - vagueie aos sons da corneta de Josué derrubando os muros da intolerante Jericó a abrir caminho para ver a alegria do céu quando recebeu Cora Coralina com um pote de doce de leite.  Ou a alegria do brotar dos pendões no milharal com as gotículas do sereno da madrugada escorrendo pelas verdes folhas. Nesse cenário alegre os anjos desceriam para anunciar a volta da flor eterna e o fim da tristeza na terra.

        Despertai, truão sonhador! A euforia abobalhada disfarça nossa missão de operários peregrinos da evolução. Mas, que reste esperança aos corações tristes. Entre o espanto e o medo dos dias de hoje faz-se necessário um intervalo para a prece consoladora e a poesia do mundo natural que se expressa no pulsar da vida. Os poetas decodificam o mundo aos que não têm olhos ver além da forma gráfica dos símbolos. Alberto Caeeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, a quem Pessoa conceitua como o mestre que aparecera dentro dele, escreveu O guardador de Rebanhos. No último poema, publicado em 1925, ele diz: “Passo e fico, como o Universo”.

          Continua a metáfora de Alberto Caeeiro: “Meto-me para dentro, e fecho a janela. Trazem o candeeiro e dão boas-noites. E a minha voz contente dá as boas-noites. Oxalá a minha vida seja sempre isto: O dia cheio de sol, ou suave de chuva, ou tempestuoso como se acabasse o mundo, a tarde suave e os ranchos que passam fitados com interesse da janela, o último olhar amigo dado ao sossego das árvores, e depois, fechada a janela , o candeeiro aceso, sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito, e lá fora um grande silêncio como um deus que dorme”.

           Tenho vontade de escrever uma história que apague a minha própria tristeza.

(Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural (raízestv.net), PUC TV, sábado 13h30. Escreve aos Sábados no DMRevista). 
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014 | By: Doracino Naves

Cheiro de trovão

É assustador o ribombar do trovão em noite escura.  A primeira imagem que me chega de trovões é a que me contaram quando eu era menino. São Pedro quando estava contrariado com os homens batia delirante em tambores feitos com o couro da Constelação de Taurus. Sem ao menos calcular aonde acerta o raio, São Pedro manda à terra os relâmpagos tirados da luz do olho esquerdo de Aldebarã. Nas noites de trovões eu cobria a cabeça e pensava na irresponsabilidade de São Pedro em jogar raios a torto e a direito. E se cair na cabeça de uma criança? Pedro, tu és um desatinado. 

Dormes, menino. Bem sei que o teu sono foi interrompido com os trovões soltos ao vento. Na garganta há uma indefinível secura de medo; o corpo treme. Sossegas, tudo isso há de passar; os anjos protegem as crianças, os velhos e os bêbados. Ah, trovão, se é assim, então chicoteias forte, repercutirás no alto da serra a força de mil tambores celestes; vai, trovão, atiças a imaginação do menino que perdeu o sono; acordas os pássaros que dormem nos galhos da mangueira no quintal. Trovão, aquietas o latido do cachorro que late para os fantasmas dessa noite. Falas alto,vais, trovejas o quanto quiseres.

Roncas, trovão falador! A tua voz provoca risos amarelos nos notívagos e obsedados; no hospital a enfermeira ri para espantar o medo de faltar luz na sala cirúrgica.  Rias, mulher, ris gostoso e rezas com fé; a tua oração afasta o perigo, mas provocas loucura nos homens quando sorris maledicente. Há um indecifrável mistério no sorriso das mulheres. Mais ainda quando está acompanhado com o olhar de quem olha através do outro; enxerga o infinito da luxúria. O sorriso de uma mulher tem mais poder do que o trovão e é mais ameaçador do que os relâmpagos que caem nessa noite. Pai nosso que está no céu...

Começava a orar para que Deus protegesse a nossa casa e os meus irmãozinhos contra os raios de São Pedro. Minhas rezas sempre deram resultado; logo os roncos dos trovões silenciavam e a chuva caía mansamente sobre as telhas coloniais de nossa casa em Porto dos Barreiros. E a figura de São Pedro - que eu imaginava gordo e suado - tocando acelerado o seu tambor, se transformava, pelos pedidos ao alto, na doce figura do apóstolo e santo católico. E o ronco dos trovões me incomodam desde essa época. Cruz-credo para os trovões carregados de raios.

Nas cidades grandes eles são ainda mais aterradores; o estrondo metálico com presságio de chuvas ameaçam invadir ruas, podendo entrar furiosas nas construções feitas no caminho das águas. E os prédios de tijolos e cimento são delirantes caixas de ressonância. Nem sempre o trovão significa toró. Em algumas situações o vento forte afasta as nuvens negras; clareadas pela prece vertical do medo.

Da janela alta vejo o céu e os prédios vizinhos. Se eu soubesse pintar os pintava com cores bem carregadas. E, no meio do céu, desenharia o sorriso de Clara. Como não sei fazer versos grito em forma de canção o nome da esposa amada bem mais alto do que os tambores de São Pedro: Clara! Clara Dawn! Eu te amo!!!!!!

O trovão já não me assusta. Espanta é o trabalho dessa crônica silenciosa a preparar o meu espírito para quando chegar o segredo do túmulo.

            (Publicada em 18 de janeiro de 2014 no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás. Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural Escreve aos sábados no DMRevista)  
             
terça-feira, 3 de dezembro de 2013 | By: Doracino Naves

Romanceiro de Goiânia III

Ao abandono da Avenida Anhanguera deve-se creditar o desprezo às praças construídas ao longo do seu curso: da Bíblia, do Botafogo, do Bandeirante, das Mães e a Praça OK.  A memória da cidade foi jogada num corredor estreito que confina o cidadão a andar espremido entre os ônibus lotados e as grades irônicas dos currais de ferro. Um metrô por baixo da Anhanguera vai devolvê-las ao povo.

  Essa ideia de um metrô por baixo da Avenida Anhanguera me faz sonhar com a Goiânia do futuro com os olhos voltados à sua vocação artística. Pois é, a nossa capital foi inaugurada em 5 de julho de 1942 sob a proteção de um Batismo Cultural.

   É por essa causa que Goiânia incorpora a alma cerratense das pessoas simples e bacanas do interior.  Nion lhe ofereceu flores; Iris presenteou-lhe com os brinquedos do Parque Mutirama e Manoel dos Reis soltou foguetes todos os dias para dizer que aqui tudo pode ser alegre e puro.

   Outro foi quem idealizou a excrescência da atual avenida e passou o rodo em mais de 60 anos de história. Depois das duas crônicas anteriores, mais a de hoje, não voltarei a falar sobre o metrô da Avenida Anhanguera. Nunca mais! Mesmo quando sentir esse espírito futurista e polifônico que me levaram a escrever a série Romanceiro de Goiânia.  Estou com os olhos cansados, mas continuo a ver a cidade com a trôpega percepção dos sentidos.

   Fernando Pessoa escreveu assim (gosto de pensar que foi para mi m):

  “Que pena tenho dele! Ele era um camponês/Que andava preso em liberdade pela cidade/Mas o modo como olhava para as casas/E o modo como reparava nas ruas/E a maneira como dava pelas coisas/ É o de que quem olha para as árvores/É de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando/E anda a reparar nas flores que há pelos campos...Por isso ele tinha aquela tristeza/ Que ele nunca disse bem que tinha/Mas andava na cidade como quem anda no campo/E triste como esmagar flores em livros/ E pôr plantas em jarros...”  

    Tantas coisas me acontecem na vida que fico na dúvida para separar a realidade. Então, escrevo sobre as correntes do que vejo e percebo em tudo;  tento registrar isso da forma mais verdadeira e fiel possível. Uso essa abordagem ars poetica nas minhas crônicas como um ato de fé sem a pretensão de teorizar ou fazer filosofia.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 30 de novembro de 2013).

      Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (raízestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
domingo, 24 de novembro de 2013 | By: Doracino Naves

Romanceiro de Goiânia II

Quando Pedro Ludovico avistou essas paragens pela primeira vez nada existia por aqui. Mas  já tinha a floresta, bichos, pequizeiros em flor e nascentes de águas puras; daquelas que se pode beber no escuro;  vaga-lumes tinha aos montes.  As nascentes formavam córregos e veredas derramando suas águas no Rio Meia Ponte.  O Meia Ponte deve ter encantado Pedro Ludovico como o Tejo iluminou a poesia de Fernando Pessoa. Do mesmo modo que os cientistas não sabem precisar o que havia antes do Big Bang, Pedro Ludovico não conhecia Goiânia antes da primeira visita. Deus já havia criado  o tempo seco e úmido do cerrado com o sol a iluminar o dia; e a sucessora lua pajeando o sono do astro rei.  O relógio do tempo só seria ligado em 24 de outubro. Alguns dizem que foi em cinco de julho.  Não importa; a vida e os amores só brotariam com a construção dos prédios e as ruas rasgadas no ventre da terra vermelha.
     
Pedro Ludovico apresentou a cidade virgem a Atílio Correia Lima que lhe pôs formas, curvas e a retilínea Avenida Anhanguera, desenhada sob a rota do sol. Pedro incumbiu Atílio a planejar Goiânia para ela nunca mais voltar a ser mata; a mesma missão do Atlas da mitologia grega que carrega o universo nas costas para o caos do universo não voltar. O descaso com a Avenida Anhanguera é o caos urbano mais impactante da capital. Planejada para cinqüenta mil habitantes a cidade sonha com um pretendente a orientar o seu crescer sem abafar a magia da tradição.
   
O primeiro namorado a escrever longas e apaixonadas cartas foi Venerando de Freitas Borges; Pedro o fez prefeito. Venerando morreu no começo dos anos noventa.  Até hoje a cidade procura outro que respeite sua origem de cidade sonhada por Dom Bosco.  E a Avenida Anhanguera pode ser a coluna principal do seu desenvolvimento sem perder sua missão.
   
Na crônica passada sugeri a construção de um metrô por baixo da Avenida Anhanguera, em toda a sua extensão de quase quinze quilômetros. Com isso apareceria, no leito atual, um amplo Centro de Arte e Cultura com carros circulando como é hoje. A rede de lojas e serviços funcionaria melhor sem ônibus cuspindo fumaça e atrapalhando a circulação dos pedestres. E o melhor da história é que toda a estrutura desse amplo centro cultural e o shopping a céu aberto já está pronta. O custo mais vultoso é a construção de um metrô. Um dia isso terá de acontecer. 
  
O metrô é uma exigência de uma capital do porte de Goiânia. Teresina, menor, tem um com mais de treze quilômetros. E Goiânia fica nessa lengalenga de ônibus vagarosos parando nos cruzamentos.  

O leito da Avenida Anhanguera, nessa ideia, deverá ter nova arquitetura para agradar a população e os segmentos importantes da sociedade.
     
Na Praça da Bíblia poderá ser construído um monumento digno do Livro Sagrado; na última estação o justo tributo ao santo católico Padre Pelágio; na Vila Nova, pode ser feita uma extensão de acesso à Federação Espírita de Goiás.
    
Na 5ª Avenida, no Setor Universitário, um braço avança até a Praça Universitária; ali está o maior museu à céu aberto do estado, com esculturas dos melhores artistas de Goiás.
    
Dois teatro estão ao longo da Avenida Anhanguera: o Teatro Goiânia e o Teatro Inacabado, sem contar o Goiânia Ouro e o Teatro Rio Vermelho, nas ruas 3 e 4, paralelas à Avenida Anhanguera. Dezenas de shoppings populares foram instalados na principal avenida comercial de Goiânia. Perto da Anhanguera foi erguido o Centro de Cultura e Convenções.
      
No cruzamento da Avenida Goiás está a Praça do Bandeirante de inflamados discursos políticos de outrora. À esquerda, talvez a menos de um quilômetro, a Praça Cívica com o Palácio das Esmeraldas; à direita, equidistante, a Praça do Trabalhador onde foi construída a antiga Estação Ferroviária; tombada pelo patrimônio histórico nacional.  
      
No meio do caminho tem o Bosque dos Buritis, o Lago das Rosas e o Zoológico de Goiânia.
    
 E a Avenida Anhanguera se transformando no maior Centro de Arte e Cultura do Brasil; por baixo o metrô cruzando a cidade de leste a oeste, no desenho iluminado do sol riscando de luz a alvorada e o poente.
     
Vou encerrar minha crônica de hoje de forma diferente. Com um poema de Pablo Neruda: “AMIGO, leva contigo o que queiras/penetra o teu olhar sobre os rincões/e se assim desejares, dou minha alma inteira/com suas brancas avenidas e suas canções”.



(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 23 de novembro de 2013. Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. wwwprogramaraizes.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
        
quinta-feira, 10 de outubro de 2013 | By: Doracino Naves

Moro na possibilidade

 Passei toda a minha infância no campo e em cidades pequenas; extensões urbanas da área rural. A maior parte da minha vida, até agora, foi entre pessoas com boa atitude cultural. Aprendi a ler com professores dedicados numa modesta escola de Palmelo; o primeiro livro, na falta de obras literárias, foi o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec; ganho no sorteio do grupo Soldadinhos de Deus; idealizado no Brasil por Alziro Zarur.

     A primeira coisa que escrevi, pensando que já sabia alguma, foi uma ordinária peça de teatro encenada no pátio da escola com atores mirins improvisados. Quem dirigiu essa turminha foi a professora Madalena; filha ou nora de Jerônimo Candinho, conceituado líder espírita da região.  Essa peça tinha uma ou duas páginas escritas à mão num surrado caderno de caligrafia. A inspiração, para escrever algo assim, veio das radionovelas da Rádio Nacional do Rio de janeiro. No rádio tudo é possível; podemos imaginar o que quisermos; o rádio é nosso. A voz bonita poder ser de um galã ou de uma donzela; o jardim descrito pelo narrador tem o formato e as cores que imaginamos. Depois disso escrevi alguma coisa tipo A Vida Espiritual dos Jovens de Palmelo, a pedido do diretor da Juventude Eurípedes Barsanulfo.

       Nessa época eu tinha cerca de nove anos; fui um exemplar Soldadinho de Deus até ser pego, junto com meia dúzia de outros garotos neófitos, fumando um maço inteiro de cigarros Urca, à beira do córrego Caiapó. Fumávamos todos os cigarros para não voltar para casa com nenhum deles. Mesmo assim fomos descobertos baforando. Levei a maior surra de meu pai com um chicote trançado de couro cru. A sova me fez mudar o prumo da vida; dois anos depois minha família se mudou para Goiânia. Não foi por esse motivo, mas já passava da hora de me tornar adulto. Deixei essa ideia de escrever e fui trabalhar. Pois é, as pessoas diziam: quem escreve é desocupado. 

       Até hoje penso que escrever me toma um tempo precioso em que poderia dedicar a atividades sérias. Por isso, jamais comento com alguém sobre o que escrevo. Assim, ganho tempo para escrever o que quero fugindo de explicar o que escrevi. A respeito desse assunto Wilian Falkner disse bem: “Não sou um literato, e sim um escritor. Conversa fiada não me dá nenhum prazer”. Leio de tudo que chega às minhas mãos, até bula de remédio.  

       Prefiro poesia à prosa; enquanto prosa, que ela seja poética. Com a poesia posso calcular o peso do vento que agita a enorme bandeira hasteada no mastro da Praça Cívica; a medida exata das chuvas que rega os jardins de Goiânia; descubro na poesia o caminho tortuoso dos relâmpagos ou os decibéis do ribombar dos trovões no alto da serra. Por falar em som, toda vez que ouço tocar o sino da Catedral Metropolitana de Goiânia, às seis da manhã, vejo Anthony Quinn - o Quasimodo Corcunda - saindo da Igreja de Notre-Dame de Paris com o coração acelerado de amores pela bela Gina Lollobrigida, a doce Esmeralda. Dickinson explica melhor a sua preferência pela poesia: “Moro na possibilidade/Casa mais bela que a prosa/Com muito mais janelas e bem melhor, mais portas”.  

         Respiro esse ar úmido das chuvas recentes; às vezes tenho a impressão que vivo numa cidade estranha e respiro um ar que não é meu; julgo que nem o mereço. Ando pelas ruas cheias de gente apressada, homens afoitos que nem olham a esposa nos olhos e penso numa cidadezinha no interior ou no convívio com a pureza do roceiro que vive no campo; onde uma pessoa olha para outra sem o sentimento de estar cometendo um crime.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 05 de outubro de 2013).

          Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (raizestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.

sábado, 28 de setembro de 2013 | By: Doracino Naves

Luz de Setembro - por Doracino Naves


Dedicado à Soraya Naves
Amanhã, domingo, é aniversário de Soraya. Durante nove meses - do verão chuvoso de dezembro à primavera de águas temporãs do setembro vindouro - cresceu no ventre da mãe para vir ao mundo e acender a luz na vida de muita gente. No primeiro dia vinte e nove da primavera ela chegou protegida por uma majestosa aura celeste; cabelos loiros cacheados e olhos verdes; nas cores da estação em que Deus escolhera para ela nascer. O ano?

Prefiro não falar. Não sou doido para fofocar a idade de uma mulher, mesmo sendo a da minha filha que tem jeito de festa e música caipira dentro da alma. Um anjo de madeixas aneladas que iluminam os meus anos, até naqueles de interminável inverno cachaçal. Isso, graças a Deus, passou.  Hoje tenho esse jeito abstêmio de quem não bebe conhaque - "eau de vin" - nem no frio chileno de zero grau.

O inverno de 2013 foi embora de Goiânia no dia combinado com a natureza; revogado sem piedade pelo eterno vai-vem das estações. O consolo é que o calor dessa primavera garante, logo nas primeiras chuvas, que o cerrado goiano vai florir; espero que chova logo, senão a vaquinha leiteira terá que desmamar o bezerro.

Vejo que o céu está pintado com tinta mais azul; o sol vermelho faísca luzes nas frestas de Libra. Às vezes percebo nuvens de algodão penduradas por fios invisíveis. Vai ver que as nuvens também são invisíveis; tenho essa mania de ver coisas irreais quando escrevo.

Mas a filhota Soraya é real. E é linda como é o jardim do cerrado depois das chuvas serôdias.  

Enquanto isso, as cigarras preparam a garganta para recomeçar o cântico ancestral até explodir suas entranhas e sua pele seca ficar grudada no lugar do último canto. A primavera é a invenção do tempo para colorir o mundo, assim como Deus concede a graça da misericórdia para perdoar nossos pecados.  Assim, Soraya, as águas da estação da chuva primaveril hão de chegar com a certeza de bênçãos abundantes em tudo que você fizer.

Peço a Deus para que não perca nunca esse seu jeito bondoso de lidar com as pessoas; o sossego de caçula desmamada que se acomoda com doçura nos braços da mãe. E se aquieta no aconchego de uma eterna canção de ninar.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 28 de setembro de 2013)

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. (raizestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.       


quarta-feira, 25 de setembro de 2013 | By: Doracino Naves

Dança da primavera

     Na semana passada eu parei a minha crônica no meio da história que me contava o amigo Walterson; no mesmo instante em que ele suspirou fundo como se buscasse força para contar o desfecho do seu caso. “Mais uma primavera cruza o meu rio”, pensei enquanto caminhávamos em volta do Parque Areião. Walterson olhou em volta e continuou.

      ... E a minha esperança de falar com a mulher da foto surgiu com o bilhete rabiscado num pedaço rasgado do saquinho de pipocas: “Domingo, seis da tarde, na Feira do Sol, ao lado dos quadros de pintura”. Fiquei aliviado mesmo não sabendo nada sobre ela, exceto o que me falara o coração. Mas coração apaixonado quase sempre se engana.

       Antes do horário marcado eu já estava lá vestido na melhor roupa.  Ela chegou caminhando lentamente; parecia flutuar sobre a calçada. Uma brisa suave evoluiu até o vento assoviar através das cordas de segurança das barracas dos feirantes. Trajava um vestido simples, de rendas brancas com uma fina corrente de ouro a sustentar uma pequena medalha de Nossa Senhora sobre o decote discreto. Calçava sandálias de cor rosa suave; saltos baixos moldurando pés delicados. Seu corpo exalava um perfume suave e agradável.

         Essa visão deixara para trás a esquina das lembranças trêmulas do meu passado; luzes delirantes de lamparinas antigas cambaleantes nas brumas da minha infância em Mossoró. Desde então atravesso morros e planícies do viver com o coração em brasas. Aquela mulher me fez tirar do milharal caído o espantalho inútil das más recordações. Naquele dia seu corpo bailou em minha direção como se encenasse a suave dança da primavera.

        Cumprimentei-a com reverência; convidando-a a caminhar pela praça tumultuada. Disse-me que não poderia demorar muito, pois tinha compromisso na igreja. Pedi-lhe mais informações sobre a sua vida. Disse-me que estudava no Instituto de Educação, que o seu sonho era ser  professora. Estava solteira e recebia uma pequena mesada para custear os seus estudos. Morava numa república de estudantes perto da Praça Universitária. Deu-me o endereço. Despediu e se afastou com os movimentos de uma bailarina celebrando a primavera no céu.

         Algumas vezes vi quando saia e entrava em sua casa.Havia uma aura de mistério em suas andanças. Em alguns momentos pensava que era casada, noutros que tinha medo dos homens; por estes motivos evitara novo compromisso. Pensei em desistir de tudo. Por fim tomei uma atitude extremada: escrevi propondo casamento; estava desesperado. A resposta veio num lacônico bilhete deixado na portaria aumentou o mistério.

         “Não posso me casar. Porém, não quero falar sobre isso”.

          Respondi-lhe com alguns desaforos, tipo “você é casada ou tem outro pretendente”; “Por que não me diz a verdade, assim deixo-a em paz”. A resposta não tardou “Não tenho ninguém, perdoe-me se faço você sofrer. Deixo-lhe uma foto”. No verso uma mensagem inesperada: “Com amor”.

               Depois dessa resposta fechei o coração para outro relacionamento; fui cuidar da minha vida como convém a um bom nordestino. A verdade é que amei muito essa mulher;  guardo na memória o seu perfume.

              Você não voltou ao lugar ao lugar onde ela morava?

          Pois é. Passado um tempo fui até lá, me aproximei do porteiro, mostrei a foto e perguntei se a conhecera. Olhou firme nos meus olhos. Ela morreu afogada no Lago das Rosas. O corpo dela só foi encontrado no dia seguinte. Seus pais vieram do interior para cuidar do sepultamento; estavam chocados com o acontecido. Você se lembra do Lago das Rosas? Lá morreram muitas pessoas até ser fechado para lazer. Tratava-se de uma boa moça, educada, que não se envolvia com nenhum rapaz. Entretanto, a minha impressão sobre ela é de uma moça misteriosa.

               Sempre concordei com o que me disse o porteiro. Por isso perguntei a você se, pela foto, ela merece respeito. O amigo emendou outra conversa; desejava encerrar o assunto. Sabiamente, parou na barraca do Zé do Coco.
               
              As conversas de nordestinos são longas, como longos e tortuosos são os caminhos da recordação.  
Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em setembro de 2013.
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (WWW.programaraizestv. net). Escreve aos sábados no DMRevista.
domingo, 8 de setembro de 2013 | By: Doracino Naves

Então, amigo, qual é o problema?

Um amigo pediu emprestado meu livro de poemas do Walt Whitman e não devolveu. Meses depois encontrei com ele na Panificadora Canadá, perto da Praça Tamandaré. Disse-me que ainda não havia lido o livro; nem abrira suas páginas.  Entendi como desfeita ao pai do verso livre e a mim; de verso preso. Sacanagem em dobro. No sábado anterior eu procurara sem êxito o mesmo livro no Goiânia Shopping. Emprestar livro e não receber de volta é comum; acabo transformando o empréstimo em presente. Mas, esse cara foi além: não leu e, talvez, por desprezo, guardou-o dentro de uma gaveta junto com pedaços de canetas usadas e a sua velha agenda ensebada da época da Telegoiás; merece ser processado por guardar poesia com objetos descartáveis.  

Ler é liberar pirilampos abrasados pela palavra do poeta; as letrinhas voejam irradiadas pela imaginação de quem recebe a força do verso. Poesia é a essência da vida; só a palavra poética nos salva da vida frívola das grandes cidades. A ganância da mídia por audiência só nos dá celebridades vazias, escândalos e fofocas; somos tratados como imbecis pela televisão e o cinema de consumo; arautos da violência e das vãs aspirações.

Pois é, o contraponto ao vulgar é a bendita literatura; com enlevo ela se torna memorável. E a manifestação da arte é o retrato sublime das paixões humanas com os naturais dramas e tragédias. Então, ler com a alma é o jeito mágico de acordar a luz desenhada pelos escribas; uma bíblia fechada não acende a chama da fé.

Aberto, todo livro deve ser decodificado com a paciência do garimpeiro que procura um tesouro. Pense numa coleção da Enciclopédia Britânica aberta ao poeta argentino Jorge Luiz Borges; agora a imagine trancada num baú. O que seria dos autores dos clássicos da literatura mundial sem a leitura de outros mais antigos, desde Homero. Sei que há situações em que o leitor percebe que não existe nenhuma pérola no final.

Mas, definitivamente, esse não é o caso da poesia do americano Walt Whitman, um dos maiores poetas da língua inglesa.  Se algum dia eu souber que o cara a quem emprestei o livro leu os poemas de Whitman, voltarei a chamá-lo amigo; sem aspas. Aí, espero que ele me devolva o livro para eu possa emprestá-lo a outro.

Até lá mantenho minha opinião, pois, parafraseando Dorival Caymmi, quem não gosta de poesia bom sujeito não é.  Antes do ponto final dessa crônica recebo uma ligação. Fico na dúvida se atendo ou não. Então, amigo, qual é o problema? 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás - setembro de 2013)

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. Escreve aos sábados do DMRevista.

Chapéu de aroeira

Preparo o café para servir aos fantasmas que passam comigo a madrugada no Sítio. Tempo embaçado nesses cafundós de Goiás. Acima da porteira do curral vejo o morro encurvado com a roça preparada para o plantio. O tempo no fim de agosto recria o habitual sofisma da seca.  Partilho com os fantasmas amigos as aflições da memória como se ela fosse uma casa grande com janelas, porta de entrada, de saída e a despensa. Nesses momentos, a memória pode encontrar bagunça nos quartos; cozinha desarrumada; armários revirados e a sala em festa para receber os visitantes. Pois é, mas também tem o porão; lugar de coisas velhas e ninhos de ratos. Meu chapéu de aroeira amanhece pendurado no prego enferrujado fincado na parede do alpendre.
      
A água do rego cai sobre o monjolo murmurando sem parar ao correr dos dias prolixos; das noites ascéticas e das manhãs incisivas. No poço raso, circulado com pedrinhas comuns, boiam centenas de girinos que, um dia, haverão de coaxar no lago. O vento com cheiro de capim meloso contorna a boca da cisterna em rodopios estranhos. Nessa hora, cinco da manhã, tudo está escuro.  O vento solitário não acha testemunha para vê-lo balançar as folhas das guarirobas ou emborcar os galhos das árvores. Janelas e portas cerram na cara do vento; o mendigo que dorme na calçada da cidade cobre a cabeça com seu tosco cobertor. Ninguém quer saber do vento frio da madrugada. E o vento rejeitado sopra em outro sentido, talvez à procura do fogo para, juntos, incendiar o cerrado. Mas essa chama daqui, que se acha engambelada pela madeira seca, prepara o nosso café.
          
A água ferve na caçarola; o bule repousa na chapa quente de ferro fundido.  Aprendi com minha avó que a medida para um litro de café é cinco colheres de sopa cheias de pó e outras seis com açúcar. Há uma multidão de criaturas invisíveis à minha volta nessa madrugada; talvez atraídas pelo cheiro forte do café coado.
        
Não estou só.  As aparições foram convocadas pelos meus pensamentos. Então, é hora de contar histórias. O vento amaina um pouco. Ouço pássaros se espreguiçando nos ninhos. Um leve soprar de vento passa e vai-se. Nem sei mais no que penso.

O café fica pronto. Sirvo-o aos amigos que acudiram as minhas aflições; sete anjos tocados pelo clamor da madrugada; também irradiados pelo alvorecer.


(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás - em agosto de 2013)
          
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. Escreve aos sábados no DMRevista.

As correntes de Hefesto

Hefesto nascera feio e coxo. Tão rejeitado e indefeso que Tétis decide criá-lo em uma gruta escondida no fundo do mar da Grécia. Lá aprende a construir finas peças de jóias em ouro puro: a coroa de Pandora; a taça de Baco; as correntes de Prometeu; a flecha de Apolo e a couraça de Hércules foram peças construídas pelo divo.

Esse menino rejeitado por Hera é conhecido na mitologia grega como o deus do fogo, do ouro e de todos os metais fundíveis; exímio artesão, também enfeita com sua arte os mais belos palácios da esplanada mitológica. Jogado ao mar pela mãe vaidosa, arquiteta sua vingança construindo um trono ornado com desenhos ricamente trabalhados em ouro. Vaidosa e frívola, Hera nem pensa para sentar-se no trono reluzente. Tenta se levantar e não consegue.  Para libertá-la Hefesto pede a Zeus que a divina Afrodite se case com ele. Depois do casamento sua esposa o trai com Ares, sanguinário deus da guerra. Com milhões de megatons na voz, Hélius, o amigo da carruagem de fogo, conta-lhe toda a trama.

Sentado em frente à sua bigorna Hefesto planeja se vingar dos adúlteros. Os dois, pensando que ele estava em Lemmo, voltam à cama. Mas, ficaram presos na armadilha feita com correntes mágicas. Avisado por Hélius o marido chama todos os deuses do Olimpo para ver a cena confrangedora dos amantes nus.  Zeus se indigna com a exposição pública de um caso pessoal.  Ordena que liberte Ares. Apolo, jocoso, se oferece para ficar preso com a bela Afrodite. Poseidon promete vultosa soma em dinheiro a Hefesto. Com tal promessa desfaz as correntes. O tempo passa com o deus do fogo ainda apaixonado pela bela Afrodite. Nasce Harmonia. O que mais o irrita é saber disso. Borbotam dos seus olhos lavas incandescentes nascidas dos vulcões do Olimpo.

 “Oh, Harmonia, filha bastarda de Ares e Afrodite, hei de me vingar tão terrível quanto à dor de ser traído”. Hefesto planeja sua vingança para quando a moça chegar à idade de se casar. Chega, enfim, o dia do casamento com Cadmo. O Olimpo se enfeita para a festa. Vestida num robe dourado, presente de Atena, ouve Apolo tanger sua lira num canto do palácio dos deuses.

Afrodite encomenda para a noiva um riquíssimo colar a Hefesto que promete beleza irresistível quando o vestir. Harmonia não sabe que o colar traz uma horrorosa maldição. Ao vesti-lo se transforma numa serpente. O colar é uma praga que traz infelicidade e morte a quem o usa. Até Jocasta, depois de usá-lo casa-se com o próprio filho e se mata ao saber disso.  E as mortes acontecem pela eternidade como é o sofrimento de Hefesto.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em agosto de 2013)
                
Doracino naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultura, na Fonte TV. Escreve aos sábados no DMRevista.
domingo, 11 de agosto de 2013 | By: Doracino Naves

Céu de bronze

O céu só ouve a prece de quem é generoso com o outro.  A arrogância firmada no personalismo e a oração interesseira não abre a porta de nenhum dos sete céus  concebidos pelas escolas místicas ou religiosas. Quem é duro com o próximo não vai encontrar nenhuma moleza para que sua prece suba ao céu. E a vida sem Graça pode ser um mundo com piso de ferro e céu de bronze. Talvez seja assim ou não no campo espiritual. Ou quem sabe eu esteja doido por causa desse tempo desértico do cerrado.

Pois é, o vento de agosto, de endoidar cachorro sem dono, surfa nas ondas das correntes desorientadas a soprar todos os cantos da cidade. As árvores e as esquinas de Goiânia, varridas por lufadas de pó, se assanham com a volúpia do ar quente a sussurrar indecências nos seus ouvidos. Em outros momentos o vento cessa em orquestrado silêncio, com a intenção única de escutar a prece das pessoas por águas abençoadas. Nenhuma folha da guariroba antiga na Avenida Anhanguera se mexe. Parece que a terra parou por um instante no espaço. Somente se ouve o pipocar de bolas imaginárias com o calor descendo pelas escadas do meio dia. É nesse clima que Goiânia mostra a incontida neurastenia da seca. E a umidade do ar despenca a doze graus.
             
De repente, a ventania maluca, voluptuosa, faz requebrar o véu de uma cortina branca em balé frenético. Antes tão sossegada na sua tarefa de deter os raios de sol, agora ela se vê subjugada à fúria do vento. A senhora de pele seca e rugosa, com mãos finas e dedos longos, aparece para cerrar a cortina. O vento esvoaça seus cabelos ralos, lisos, grisalhos e cadavéricos como se fossem feitos com teias de aranha.
         
Quer saber de uma coisa? Vento de agosto dane com o pregador; levantai a saia da donzela; jogai cisco no olho do maledicente; dás uma tapa na mão do jogador e tirai dele o bilhete de loteria; correi até o oficial de justiça e arremessai para longe a ordem de despejo daquela família que atrasou o aluguel.
          
Mas, oh, vento de agosto, não tirai a passagem de ônibus da mão da doméstica que precisa voltar para casa e rever o seu filho. Ela só tem um sit pass.
              
Ah, vento, ventai muito, sem medo de ventar; o vosso destino é ventar sempre, pela eternidade afora. Afinal, vento que não venta não é vento.
            
Não permitas, vento nosso de cada dia, que Éolo, o deus grego, aprisione a tua energia secreta. Não fostes feito para serdes mercadoria. Do mesmo modo como não ventas para ganhares dinheiro a espiga de trigo não foi criada para ser vendida. Mas, embora assim seja, a semente dos grãos continuam generosas na sua missão terrena de reproduzir o de comer. Por causa da sua essência não comprometida com o lucro, os grãos continuam sua sina emblemática de plantar e colher. E nem dá bola para quem ganha ou perde; cumpre com fidelidade o seu pacto com o alto.
           
Talvez seja por essa causa que Deus abre o céu para os raios de sol, a chuva abundante e o vento que balança os grãos de trigo em sua dança de fertilidade nos campos dourados. Ai de quem mudar esse ciclo.

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - em 10 de agosto de 2013).
              
Doracino naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV. Escreve aos sábados no DMRevista.
             
domingo, 4 de agosto de 2013 | By: Doracino Naves

Calado é melhor

Um papa generoso, cristão e sem preconceitos. Assim começou a conversa em uma banca de jornal da Praça Tamandaré, onde gente de várias crenças se reúne todos os dias. Um papa franciscano que acredita em Deus e na lei da simplicidade, disse um dos arautos da sua própria verdade. Sentado na espreguiçadeira, o teólogo que escrevera durante muito tempo sobre Deus, disse não mais acreditar Nele. Quem é Deus que ninguém vê? Nem é espírito, porque se o fosse seria inteligente para não permitir as injustiças do mundo. Foi categórico: Deus não existe.
   
O doutor, metido num terno e gravata, em sua impostergável arrogância, disse, olhando para o lavador de carro: coitado, acredita em Deus! Outro homem que se declarava católico, em pé, ao lado do teólogo, tirou de dentro da camisa o crucifixo de metal preso numa corrente de ouro. Não podemos duvidar de que Deus existe. Essa cruz me protege noite e dia. O islamita que a tudo observara calado levantou-se do banquinho de madeira. Alá é o criador de todas as coisas, cujas mesquitas estão espalhadas por todo o mundo árabe. O judeu, dono de uma galeria de lojas próxima da Praça, intervém: existem templos para todas as crenças, mas o único Deus é o de Abraão e Moisés cujo povo é o escolhido para o paraíso.
      
Um chegante ao ouvir as últimas palavras, precipitou-se em meter a sua colher de pau na conversa, mesmo sabendo que o homem de bom senso não entra numa conversa sem saber do que se fala: Então, o seu Deus é injusto, pois escolheu uma raça para dedicar o seu amor.  O pastor missionário, recém chegado de Angola, mas subordinado a uma denominação evangélica brasileira, falou firme, segurando sua Bíblia. Deus é eterno; o mesmo de ontem, de hoje e o de sempre. Só se salvará aquele que reconhecer Deus em espírito e verdade, sob a intercessão de Jesus, nosso Salvador.
Decidi que seria melhor eu ficar calado.
     
Tenho por costume nunca entrar nesse tipo de assunto; talvez por timidez. Gosto de observador as pessoas, sem, no entanto, me sentir afetado por uma só opinião. Lembrei de uma parte de um conto de Bernadin de Saint Pierre. Numa roda de homens procedentes de diversos países havia um cego que perdera a visão na tresloucada ambição de apropriar-se da luz do sol. Passava o dia olhando diretamente para o sol.  Tentara por todas as maneiras engarrafar ao menos um dos seus raios. Concluiu que se o vento não o movimenta não é um fluido; como não se pode parti-lo não é sólido; também não é fogo porque não se apaga na água. Logo, o sol não é coisa alguma. Por causa desses delírios ficara cego e, o que era pior, perdera a razão. Sua ignorância fez-no acreditar que não era a sua visão, mas sim o sol que deixara de existir no universo.
      
Talvez a mesma história se repita em relação a Deus. A vaidade das crenças e da convicção egoísta do homem é capaz de cegá-lo diante de tanta luz. Querendo tomar posse do céu não percebe que seu conceito pode falhar na tentativa de descobrir o verdadeiro sentido do mundo. Todos O têm como exclusivo; para a religião é bom que seja assim.  Mas o Templo de Deus é o universo encantador e misterioso aonde se movimentam suas criaturas. 
      
Nenhum altar é tão sublime quanto o coração do homem quando o pontífice é o próprio Deus, pleno de misericórdia e generosidade.


(Publicado no jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em agosto de 2013)
      

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (raízestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.