Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 28 de março de 2014 | By: Clara Dawn

O lago virgem - partes I, II e III

         
Acender a chama de pescador é só falar em pescaria farta.  Foi o que fez o Beto para motivar a turma de pescadores à procura do lago virgem e cheio de peixes. A cansativa travessia da mata densa deixara todos abatidos. Nem o guia podia imaginar a dificuldade em atravessar a mata fechada. Só então um dos pescadores perguntou ao Beto como ele soube que o lago era virgem.

            -Foi um índio Karajá quem me disse.

             Dico maneou a cabeça. Mas guardou para si aquele gesto negativo. O dia começara a clarear. Os pássaros na mata anunciam que o sol, inexorável na sua viagem pelo universo, abre passagem a onipresente luz da manhã. O vento suave, fresco, resoluto, cúmplice, afasta os galhos das árvores na tarefa de ajudar o sol a transpor a mata. Nada detém o vento e o sol que brilha nas gotículas madrugadoras caídas do céu. A luz  agradece e ilumina o ventre da mata.

          Nem a música afinada dos pássaros ameniza o semblante cansado da turma. A luz forte do sol mostra as rugas velhas, agora cansadas, do arauto do lago virgem. Sua figura de aparência rude esconde a doçura de alma ingênua, quase cândida. Em Luiz Alves, portal sul da Ilha do Bananal, Beto é um pescador desacreditado. Ridicularizado até. Quando sai com uma turma de pescadores os barqueiros ribeirinhos costumam despedir-se dizendo:

            -Vai lá, pé-frio. Vai dar isca pros peixes.

          Talvez venha da necessidade de mostrar o contrário que Beto se esforça tanto para uma boa pescaria. O cortejo rasteja cansado sobre as folhas secas. Ouve-se, ao longe, o som de um motor de popa que aumenta até parar.  Distingue-se vozes e o característico barulho de algo caindo na água. Viram depois que era uma “poita”, espécie de âncora feita de virabrequim de motor velho.

          Beto, eufórico, anuncia:

         -Chegamos. É o lago.

          Entre os pescadores há alívio pela chegada. Mas também decepção em perceber pescadores no lago tido como virgem. Chegaram à margem do lago. Apressaram os passos e depararam com uma turma de pescadores esparramada pela lagoa do tamanho de um campo de futebol.

          - Por onde vocês vieram?

          - Pelo meio da mata quebrando galhos para passar a canoa e a traia.

          - Não precisava disso. A lagoa é boca franca. A gente chegou aqui com o motor ligado, nem precisou de remo. Vocês só precisavam descer mais uns dois quilômetros e entrar no canal que traz ao lago. É fácil chegar até aqui!

           Toda a turma olhou para o Beto que se escondeu atrás de uma árvore de casca grossa. Nenhuma palavra foi dita; nem Beto disse nada. Talvez pensasse na sua atual fama de pé-frio. Àquela hora a fome era tanta que todos sentaram para esperar a comida. Osvaldinho, o cozinheiro, resolveu montar a trempe para cozinhar. Jogou óleo na panela. Adicionou tempero e deixou dourar. Enquanto isso ele  desceu ao lago. De cócoras lavou o arroz e a carne seca, sacudindo-a para que as larvas da varejeira desgrudassem da manta de carne. O cheiro de arroz refogado invadiu o ambiente silvestre.

              Havia em Beto algo que lhe dava a certeza de que a sua sorte iria mudar. Transpareceu entusiasmo suficiente para motivar a turma. Essa era a sua obrigação de guia de pesca. Mesmo que nenhum daqueles pescadores tivesse pescado um só peixe Beto confiava na sua sorte que o ajudara, no passado, a fisgar peixes grandes. Existe uma porta misteriosa que dá passagem ao pescador de sorte. Uma magia que percorre a vara de pesca e busca, no fundo das águas, o peixe desejado.

             O ânimo voltou a acender a alma aventureira do grupo de pescadores acontecendo fatos que vou narrar no próximo sábado.

Pirarucu, o rei do lago

      Beto idealizara essa pescaria para reconquistar a sua fama de bom pescador; perdida depois do literal jejum de peixes. Ganhara muito dinheiro pescando e trabalhando de guia de pesca. Porém, gastou tudo com a mulherada da zona de São Miguel. Talvez por isso morasse sem mulher nem filhos num rancho de palha à beira do rio. Beto conhecera bem as estações das águas, as espécies de peixes, os bichos da região, as fases da lua, as aves coloridas que, aos bandos, empoleirava-se nas árvores espetadas no terreno arenoso do Rio Araguaia. Mas, aprendera que para um bom pescador a sorte é mais importante do que a experiência.

       Na crônica anterior contei sobre os pescadores que se encontravam no lago virgem. Pois bem, desanimados com a escassez de peixes, foram embora no mesmo dia. Ficou a turma de Beto, cuja obsessão era pegar um peixe grande. Que a sua sorte não o abandonasse nesse momento de provação!

        Utilizaria de toda a sua experiência para favorecê-la. Estava atento ao movimento da água. Cau uma frutinha vermelha conhecida por “mata-fome”. O tucunaré pulou engolindo-a antes de cair na água. Uma onda grande, suave, diáfana, se formou nas profundezas do lago envolvendo o tucunaré. O pescador, intrigado, fixou o espelho da água procurando o insólito.

      Enquanto observava, filosofou em silêncio. “A poesia da água é a metapoesia da morte. A água é um elemento efêmero, traiçoeiro, que revela o fim”. Permaneceu calado quase vinte minutos. Sabia que “aquele” peixe viria à tona para respirar. Nada desviou a sua atenção. Nem o barulho da turma que se ajeitava para pescar. Um rebojo agitou as águas. O monstro submergiu impávido. Apareceu a cabeça do gigante. O resto do corpo deslizou sobre as águas.

    -Meu Deus, é um Pirarucu muito grande. Deve ser o pai de todos!

     Calculou mais de três metros; uns 200 quilos de peso. Mesmo impressionado resolvera nada dizer aos outros. Temia ser ridicularizado se dissesse o que vira. À tarde, a sua turma, decepcionada, decidira voltar ao acampamento. Beto, ao contrário, ficara para cumprir seu plano. Atlas, piloto do barco, tentou dissuadi-lo. Inútil.

       - Então, vamos deixar comida pra você. Fica a lona para montar uma barraca. Ah, tem uma canoa no outro lado do lago. Depois da pescaria deixe-a no porto de Luiz Alves.  

        Essa pescaria exigiria uma estratégia especial. Acendeu uma fogueira para que o fogo, que ardia no inferno e brilhava no céu, lhe devolvesse a sorte. Jogou a lona em cima das varas em forma de jirau prendendo as pontas com pesados galhos. Dormiu coberto com trapos sujos de um estandarte conspurcado pela má fase. No interior da barraca improvisada fizeram-se trevas, mas apontavam o caminho da luz.            

      O dia chegara à garupa da esperança. O vento leste remexera as folhas caídas na madrugada de espera. Uma zonzeira estranha invadira seu corpo. Levantou-se num impulso, caminhou firme rumo ao lago. Agradeceu a Deus, o Criador, pela maior conquista humana: a verticalidade.

       Examinou o lago à procura do peixe-rei. Esperto, ele não apareceu aos olhos do pescador. Talvez boiasse debaixo dos galhos arqueados sobre o lago.  Uma neblina rala se desprendeu das águas mornas, aquecidas pelo verão. Pássaros alegres romperam o silêncio sepulcral do ermo. Assim, vigilante, passou o dia. Anoitecera sem que Beto jogasse o anzol na água. Respeitou a vontade do peixe, o rei do lago.

         No dia seguinte, bem cedo, estava pronto para a batalha. Tudo fora calculado: aonde jogaria o anzol, quanta de linha poderia dispor para o caso de ele embravecer; isso era certo. O segredo para pescar peixe grande era não deixar a linha tesa por muito tempo. 

         Arremessou a isca disfarçada no anzol tipo gancho de açougue. Talvez a maior dificuldade, além de fisgá-lo, seria evitar ser devorado pelas piranhas vermelhas e candirus banguelas.

        Três horas depois a linha, tecida com fios de seda, foi esticada para dentro do lago. Depois afrouxa a linha, leve, que flutua sobre a água morna. Parecia que o peixe desconfiara da armadilha. Beto, experiente, ficou quieto. Conteve a respiração, permaneceu inerte. Seu suspense saltou sobre a  superfície tal qual pedrinha n’água.  

          O pirarucu engoliu a isca devagar. De repente um coice abissal. A linha deslizou acelerada como sarilho de cisterna queimando as mãos de Beto. Ele deu um tranco contrário cravando o anzol no bucho do peixe. Miríades de olhos ocultos observavam a luta de titãs. Fisgado, o peixe arrastou Beto com os calcanhares esquiando na terra. Bendita força da gravidade. Os pés tocaram a água. Entrou no lago até a cintura, mas suas mãos, sangrando, não desgrudaram da linha. Pensou: “Se a gravidade é um fardo que prende a alma, pegar este peixe será minha honra no  voo da superação”.

         A linha retesada entoou uma canção de vitória. O peixe gigantesco, atônito, saltou acima da superfície. Tentou se livrar do anzol. Mas, estava inapelavelmente fisgado. Os cabelos brancos e a pele enrugada do pescador balançaram numa imagem ambígua, misteriosa.

      

O fim da pescaria no lago virgem


         Com o pirarucu fisgado Beto lembrou a solidão do seu rancho na beira Rio Araguaia; sua luta pela sobrevivência, seus sonhos, seus pensamentos a respeito da vida miserável que o acompanhava desde criança. Mas, tinha saudade dos tempos em que a pesca abundante atraía amigos e admiradores. Fora um rei da pesca; a má sorte lhe tirara a coroa. Talvez a pesca desse peixe grande lhe trouxesse a sua reputação de volta.

         Aquele peixe enorme, o maior que vira em sua longa história de pescador, não se entregaria facilmente, pois o seu instinto era sobreviver. Num puxão brusco, que quase lhe tirou a linha das mãos, o peixe foi ao fundo do lago; depois arrancou em sentido oposto. Beto soltou a linha e o deixou viajar pelo lago. Deu-lhe, talvez, a última sensação de liberdade. Embora disposto a levá-lo ao porto de Luiz Alves, Beto o respeitava; fez-lhe todos os gostos até que a sorte apontasse o vencedor. Cada gesto dos dois parecia pensado e medido. Enquanto isso Beto permitiu que o pirarucu saísse para respirar a brisa fresca soprada por baixo das coivaras.

        O sol começava a se mostrar acima das árvores altas que cercavam o lago. Beto grudou as mãos na linha de fio de seda e a recolheu apressadamente; o peixe lutou fazendo força contrária. Suavemente seus braços, ainda musculosos pela lida, puxaram uns cinco metros de linha. O peixe forçou para escapar do anzol. Beto permitiu a linha correr novamente e a recolheu. Assim foi, até que o pirarucu, sentindo o estertor da morte, reunisse suas forças e, desesperado, saltou fora da água tentando se livrar do anzol.

       O pescador segurou a linha com firmeza sabendo que, quando descesse, o peixe  mergulharia até ao fundo. Suas feridas nas mãos doeram, mas não descuidou da linha. A dor da humilhação anestesiara sua dor, aumentando suas forças. O peixe grande, enorme como jamais pescara, dava sinais de que logo se entregaria. Exausto, mostrou a cara olhando respeitosamente o pescador. Soltou um ronco e se prostrou rendido. Suas escamas, nas cores prata e vermelha, brilharam á luz do sol.  

          Beto finalmente vencera o rei do lago. Cravou o arpão no peixe com o respeito que aquele gigante merecia. Foi um golpe de misericórdia. Era muito grande para colocá-lo dentro do barco. O jeito seria amarrá-lo atrás para levá-lo seguro ao porto. Temia de que as piranhas, ao sentirem o cheiro de sangue, atacassem o peixe. Outro perigo, os candirus, seriam capazes de, mesmo sem dentes, devorar a carne do peixe em minutos, deixando só a carcaça.  

          Desceu da canoa e, através da vazante estreita, pôs a corda no ombro arrastando o peixe até a foz do rio. Cravou os remos na alma do rio em catarse de suas dores. Singrou as águas determinado. Olhou para trás orgulhoso da sua conquista. Queria chegar ao porto de Luiz Alves. Àquela hora seus amigos pescadores estariam chegando.

           Desesperou-se ante a visão de um bando de piranhas vindo em direção do peixe. Ela sentiram o cheiro do pirarucu machucado. Rápidas, retiravam nacos da carne, num banquete macabro. Com o facão de folha comprida e afiada matou várias piranhas; porém, o facão revelara-se ineficiente para vencer as outras. Chegando à rasura, largou os remos e combateu-as ferozmente com o que tinha dentro do barco. Percebeu que seria inútil lutar contra milhares de piranhas assassinas. Ante a demora pelo socorro dos amigos que o ajudariam a tirar o peixe da água pulou no rio. Segundos depois uma onda vermelha, de sangue, envolveu o barco descendo mansamente o Rio Araguaia até se diluir nas águas borbulhando como se cozinhassem os corpos do Peixe e de Beto. Em poucos minutos as águas rasas se acalmaram. Um bando de curicacas sobrevoou o barco em grunhidos sinistros.

       O esqueleto do pirarucu permaneceu amarrado ao barco, uma visão estranha, mas resgatara definitivamente a imagem do velho pescador. O esqueleto de Beto ficara, para sempre, sepultado nas areias do rio igual poita de um barco de sonhos apontado para o céu.


(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 30/04/2011)
domingo, 4 de agosto de 2013 | By: Doracino Naves

Livro rejeitado


 Bruninho chegou ao consultório do doutor Veríssimo com um livro de nome estranho. Com a expressão triste bateu suavemente à porta.
O dentista se surpreendera com a presença do jovem àquela hora em seu consultório.
                                  E aí, prezado Bruno, como vai?
 Com as mãos já na linha da cintura, preste a entregar o livro, Bruninho falou emocionado:
                              Mamãe pediu para que viesse lhe agradecer por ter extraído o meu dente cariado que doía mais do que espinho de pequi cravado na língua. O senhor salvou o meu ano escolar, pois com aquela dor terrível não tinha ânimo para estudar. Por causa desse favor nós nem sabemos como lhe agradecer.
                                  Não precisa. Fiz o que outro dentista faria diante da dor.
Doutor Veríssimo observou o livro nas mãos do jovem, ajeitou e tirou os óculos, coisa que fazia quando estava nervoso. Pôs os óculos. Depois de ler o título, confuso, disse baixinho:
                                  Deve ser um bom livro. Entretanto - agora me lembro - o livro fala de amor, mas muitos o consideram obsceno.  
                                Doutor, minha mãe, que é dona de uma loja de livros usados, comprou este livro pensando em lhe presentear. Tenho certeza de que não é um livro imoral.
                                Nem Bocage ousou escrever um livro tão indecente. Se eu aceitasse o livro iria trazer a pornografia para dentro de casa.
                                 O senhor nem parece que se formou numa universidade de gente ilustrada. Imagina, trata o livro como se fosse lixo. É literatura, doutor... é arte. Minha mãe me disse que milhões de pessoas já leram esse livro. Olha só essa capa, doutor. É um primor.
                                Acontece, filho, que sou evangélico. Meus irmãos e minha família costumam vir aqui. Também recebo senhoras do bairro e este livro pode acabar com a minha reputação. Por outro lado, não é certo que eu guarde um presente no fundo da gaveta. Vamos fazer o seguinte: leve esse livro de volta. Depois eu converso com a sua mãe.
                                Não posso voltar com o livro, doutor. A rejeição ao presente há de nos causar uma enorme decepção. O senhor me curou de dente doído e nós queremos retribuir com um livro famoso. Não o rejeite, doutor. Eu lhe peço.
                               Ora, Bruninho, vocês não me devem nada. Dê lembranças à sua mãe e, agora, deixe-me atender as pessoas que me esperam na recepção.
                              Certo. Não vou lhe tomar mais tempo, mas deixo o livro. O senhor pode colocá-lo entre os outros. Ninguém vai ver o conteúdo. Até logo, doutor Veríssimo.
O livro ficou.
                              “É um livro curioso. O protético me disse que é instigante”.
Depois de pensar assim, doutor Veríssimo se lembrou do padeiro, seu amigo, que, certamente, gostaria de ler o livro. Afinal, ele é solteiro e meio malicioso.
                            “Fico livre dessa obscenidade literária e ainda agrado o amigo padeiro que sempre escolhe para mim o pão mais tostado e crocante”.
                             Bom dia, amigo. Eu lhe trouxe um livro de presente.
                            Obrigado.
                            Olha só a textura da capa. Que beleza!
O padeiro leu o título e se lembrou de que alguém lhe falara de um filme com este nome. E era proibido para menores de dezoito anos.
                          Não posso aceitar o presente. Minha mãe católica vive na igreja, está bem velhinha e eu não seria capaz de lhe causar um desgosto desses. Ela vive a pregar contra a sem-vergonhice dos dias de hoje. Não vou ficar com ele, leve-o de volta.
                            Você não pode recusar meu presente. Sua recusa afronta a nossa amizade.
O dentista deixou o livro sobre o balcão e saiu. Na hora da folga o padeiro folheou algumas páginas. “Ufa! É muito forte”. Decidiu ofertá-lo ao locutor do carro de som que falava maravilhas da sua padaria. “Penso que ele vai gostar, vive a declamar poesia às moças no caminho da sua propaganda. Ah, lá vem ele com o alto falante ligado”.  Fez sinal para parar. O carro para, o locutor diminui o volume do som.
                             Oi, Gervásio. Tenho um presente bacana para você. Como está ocupado, vou deixá-lo no banco de passageiro.
Fez assim, tão rápido que o motorista nem examinou o que ganhara. Parado no sinaleiro Gervásio resolveu examinar o que ganhara do padeiro.
              ”Onde vou colocar um livro desses. Moro em pensão e nem tenho gaveta para escondê-lo; e a arrumadeira do quarto vai pensar que sou algum maníaco
sexual. Ah, já sei. A mãe do Bruninho tem uma loja de livros usados. Talvez ela me pague bem por essa raridade”.
O locutor seguiu o seu pensamento, mas recebeu apenas alguns trocados pelo livro.
No outro dia, doutor Veríssimo se preparava para atender uma senhora que iria colocar a dentadura, quando, de surpresa, apareceu Bruninho segurando um livro.
                            Doutor, veja o que encontramos. Um livro igual ao outro. Este aqui mamãe lhe envia para que o senhor presenteie um amigo. Não é uma beleza? Vou deixá-lo em cima da mesa. Até logo, doutor.
Doutor Veríssimo nada disse, nem esboçou qualquer reação. Ficara pasmo.


(Publicado no Diário da Manhã - Goiânia - Goiás - em julho de 2013)

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (WWW.raízestv.net). Escreve aos sábados no DMRevista.
domingo, 2 de junho de 2013 | By: Doracino Naves

Metasonho

Quase noite. O lusco-fusco deita preguiçosamente sobre o capim jaraguá que começa a dar sinais de seca. Vem a noite escura e densa cobrindo com seu véu o caminho sinuoso que leva à cidade de Goiás. Quica, neta de escravos que continua escrava, apesar dos tempos novos, fecha a janela de madeira deixando de fora seres notívagos que vagam pelos currais e taperas mal assombrados. Não conhece nenhum lugar além da casa grande onde nascera e vive para o trabalho. Festas só na fazenda, assim mesmo para servir os convidados.
   
Aprendera com sua mãe, também escrava, apesar de liberta, a ser servil com seus patrões aos quais, por tradição dos escravos antigos, deve demonstrar gratidão e subserviência total. Os filhos do patrão foram estudar muito longe. Rio...Rio de Janeiro. É isso. Um dia, Maria de Lourdes, a filha mais nova, chegou à fazenda barriguda de neném. Depois de alguns meses foi embora deixando um menino aos cuidados da avó. Na verdade quem zela da criança é Quica. Balança suavemente o berço. Sussurra uma canção de ninar: “Boi, boi...boi da cara preta, pega esse menino...” Seu canto sai triste. Está macambúzia com a lembrança dos pais; cochila junto com o menino.

Uma luz oscilante de lamparina não decide se fica acesa ou se apaga com o vento fraco que entra através das frestas do telhado antigo. Acorda sobressaltada com o choro do menino. Já faz uma semana que ele chora quase sem parar. Seu umbigo crescera até estufar. Quica está para morrer de tanto sono. Mas o choro quase aos gritos não lhe dá sossego hora nenhuma. Sente o cheiro do mato misturado com as fezes do gado. O canto monótono de um curiango ecoa na noite. Ou seria voz de assombração? Está confusa pela falta de um sono longo e reparador. A mente tonta de sono vacila com pensamentos disformes.
      
 Mas, não descuida do menino. Procura fazê-lo dormir, quem sabe assim ela poderia dormir um pouco. Tem de ser disfarçado, pois se os patrões a pegam dormindo, talvez leve uma surra. Tem medo da patroa velha, gorda e má. Com sono sua cabeça fabrica sonhos alucinantes e terríveis. A avó do menino, com cara de fantasma, aparece com uma lamparina na mão. Na outra, uma caneca de chá feito com o sumo do assa-peixe branco. Pode ser bronquite. A velha dá o remédio e volta ao seu quarto com suas vestes brancas fantasmagóricas que balançam até desaparecer no corredor longo e madeiroso do casarão secular. Tóc-tóc-tóc, o tamanco martela os ouvidos de Quica. O sono irresistível distorce sons e a sua imaginação voa alucinada.
          
Sonha com bezerros negros caindo no rio pedregoso que desce das serras em volta da cidade. A correnteza arrasta os bezerros água abaixo. Depois sonha dormindo um sonho longo e profundo; o metasonho pouco ameniza sua vontade de dormir. Volta o choro berrado do menino e a desperta bruscamente. Pela primeira vez sente raiva daquela criança. 
        
Sai o sol. Os animais e os pássaros fazem festa no milharal. Tudo parece alegre; menos Quica. Dormir é a sua maior obsessão; ficaria até sem comer para dormir um sono pesado e sem preocupações. Distraída nem percebe que o menino chora. Sonha abandonada numa estrada sem fim perseguida por enormes caititus. Sobe num cupinzeiro alto, quando sente um empurrão forte. Era o patrão que a despertara com um soco nas costas. Vê a cara do patrão enfurecido gritando aos berros para olhar o menino. O garoto chora desesperado; parece manha. Sua ojeriza pelo patrão aumenta e tudo que cerca aquela casa tem um tom escuro de revolta. Ninguém a deixa dormir.
          
Sua patroa ordena: - vá, agora! lave a roupa que está no batedouro e depois varre a casa, inclusive a varanda e o quintal. No fim da tarefa o menino volta a chorar. Antes de a velha ficar nervosa, corre ao quarto para cuidar do menino.
         
Diabos! Esse menino nunca dorme; chora noite e dia sem parar. Nisso, ouve o tropel de cavalos apressados chegando à porta da sala. Era o peão a dizer que o médico chegava para ver o menino doente. Um Fordinho 29 ronca sobre o mata-burro. Enfim chega o médico novo e disposto. Entra na casa com suas botas rangedeiras de couro e vai logo ao quarto do menino. Após o exame decide levá-lo ao hospital, distante quatro léguas da fazenda.
             
 - Quem vai comigo para fazer-lhe companhia?
           
Quica receou que fosse ela a escolhida. Ponderou, em silêncio, que a patroa velha e doente não suportaria cuidar das tarefas pesadas da casa. Para sua sorte a patroa se prontificou em ir com o neto, talvez pensando em rever as comadres da cidade. A empregada se sentiu no céu.  Sem ter de cuidar do menino poderia dormir na sua cama de colchão feito de capim, ou quem sabe, à sombra da mangueira mais sombrosa do quintal. Coou o café de despedida. Saíram o três ao som estridente da buzina do  Fordinho  que berrava pelo caminho.
                 
Então, Quica se sentiu a mais feliz das escravas. Podia, agora, dormir e sonhar livremente.

                    
Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raizes Jornalismo Cultural, na Fonte TV e Canal Metrópole (raizestv.net). Escreve ao sábados no DMRevista.
segunda-feira, 29 de abril de 2013 | By: Doracino Naves

Mané Graia e o talvez

Chamava-se Mané Graia aquele homem troncudo, estatura baixa, cabelos lisos e ralos; gordurosamente grudados na cabeça. Fez-se meeiro de uma pequena roça de milho plantada na clareira destocada de uma mata de galeria no município de Hidrolândia.

Tempo medonho nesta noite; trovões e relâmpagos soltam flashes a clarear os olhos atentos da coruja empoleirada no alto de um baru. O aguaceiro contorna o rancho pelo canal feito para desviar a enxurrada. Tião, ajudante que aparecera no roçado para o último serviço de capina antes da colheita, está com cara de doente. Descalça as botinas sujas de barro, arremessa-as a um canto do rancho. O vento, entrando pelas frestas das paredes de pau-a-pique, apaga a única lamparina. O jeito é esperar o vento se acalmar para acendê-la novamente.

Dois pescadores montados numa lambreta velha se esgueiram através da plantação. Buscam abrigo. O ar fica com cheiro de gasolina misturada com óleo dois tempos. Chuva maldita! Disse um dos pescadores ao entrar apressado no rancho sob a inconstante luz dos raios. Naquele pequeno mundo coabitam a luz e as trevas. É sexta-feira da paixão. O destino reunira os quatro homens num singelo rancho de palha à beira do rio Meia Ponte. A chuva torrencial anuncia a enchente de São José com água aos cântaros.

Lampejos intermitentes mostram esqueletos de árvores esturricadas pela queimada de agosto; testemunhas espectrais do fogo insano que queimara toda a vegetação. Noite de dilúvio. Lua cheia. Arre! Sexta-feira da paixão com lua cheia é prenúncio de lobisomem. Ainda mais quando não se respeita esse dia santo. Mané Graia recebe os estranhos com cortesia; oferece-lhes um lugar sem goteiras.
            
Eles se apresentam como pai e filho que usam o motivo do feriado para pescar; vieram pegar traíra no remanso abaixo da ponte de madeira. O filho acende um pequeno lampião a gás. Na garupa da moto tem mantimentos para preparar uma janta simples: arroz, carne seca, feijão em lata, óleo e farinha. E a indispensável garrafa de pinga e limão galego apanhado no quintal da casa do pai. Mané Graia se oferece para fazer a comida.
               
Entre um gole de pinga e outro, com tira-gosto de carne seca, a conversa fica mais animada; contam histórias vantajosas e cabotinas; algumas sobre assombração. Arredio, o ajudante se encolhe num canto. Seu corpo, enrolado num cobertor sujo, treme que nem vara verde. O pai pergunta-lhe de onde viera. Sua voz sai gutural e imprecisa: das bandas de Aruanã. Um raio explode no alto do Morro Feio. Depois a chuva diminui. De modo inesperado, ela cessa; o vento leste abre o céu às estrelas e a lua cheia se impõe naquele torrão úmido entre Hidrolândia e Bela Vista.
              
O ajudante, talvez aborrecido, sai com a manta cobrindo a cabeça como se desejasse esconder o rosto. Mané Graia, desatento, engole uma caneca cheia de pinga. Faz uma careta horrorosa. O urro forte de lobo balança o frágil rancho. Mané fica todo arrepiado, com os cabelos espetados como se fossem os de um porco-espinho acuado. Pode ser o calafrio provocado pela cachaça. Talvez...
           
No dia seguinte houve sol. Mas, tudo estava quieto. A lambreta, tombada, derramara toda a gasolina. O vizinho lampeiro, à procura de uma rês desaparecida, vai até o rancho.
                   
- Ô de casa, ô Mané!
                    
Vê três corpos dilacerados; indecentemente inertes. Tudo fora revirado; as panelas no chão.
                    
Aterrorizado com a tragédia sonda os arredores.
                    
- Foi onça!
                    
Talvez...

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 27 de abril de 2013)
domingo, 30 de setembro de 2012 | By: Doracino Naves

Tatu cego

 
Aquele homem tinha o rosto cavoucado. Suas covas, exageradamente puxadas para dentro,semelhavam as de um judeu que passara pelo holocausto nazista. Ou a buracos cavoucados na rocha por um tatu cego. A natureza, indiferente às dores do homem, não se dobra às suas angústias. Segue o seu destino de animar o planeta. Os beija-flores, indiferentes ao homem de rosto cavoucado, tilintam suas asas de cobre ao redor das flores. O trinca-ferro desrespeitoso zune o seu canto na imensidão. Mais alto, um bando de urubus espreita o que acontece lá embaixo. O urubu é capaz de sentir o cheiro da morte à distância. Nessa hora, um urubu-rei, tal qual o homem que se agrupa nos velórios, chama outros urubus para espiar a morte. O homem de rosto cavoucado, com a cabeça inclinada para trás, é o retrato do inexorável fim. Mas, Ditão, embora doente, continua vivo.
Chegara há três semanas ao garimpo de Lavrinhas, no interior de Goiás, onde se acomodou com outros garimpeiros em um tosco rancho de palha. Viajara para tentar a sorte no garimpo. E, quem sabe, realizar um sonho: colocar, na frente da boca, dois dentes de ouro. O ouro da alegria. Queria mostrar a sua prosperidade. Por que não? Lembrou, magoado, que padre José lhe fizera um demorado sermão antes da viagem. Assim mesmo, deu de ombros e se foi deixando sua mulher e um casal de filhos pequenos em Hidrolândia.
Ainda ontem começara a se sentir mal; com periódicas ondas de calor a lhe causar calafrios terríveis. A palidez da pele amarelou mais com a chegada dos suores intermitentes. Seu corpo geme de dor. Os colegas garimpeiros tentam aliviar o mal com chás e rezas. A febre vai e volta com surtos esporádicos a lhe cozinhar o fígado e o baço.
Nos gemidos do garimpeiro doente havia um tom de blasfêmia por causa do mau agouro do padre. Em outros momentos orava com fé. De modo que a blasfêmia e a oração estavam carregadas de explosões atômicas a fustigar a sua alma.
Nem os chás e rezas aliviam a doença inesperada. Está muito cansado; cochilou por um instante. Sonhou com a mulher e os filhos embaixo de um pé de jabuticaba. Acordou com o próprio grito. Ouviu através da indiscreta parede de palha trançada: “É... ele vai morrer, pegou a caladinha”. Estremeceu de angústia ao ouvir isso. Saltou da cama, cambaleando foi de um lado ao outro do rancho. Chegou à porta que estava aberta. O ar parecia parado. Estranhou o silêncio aterrador que o cercava.
Precisava acordar para tirar da cabeça aquele sonho terrível. O ronco de um garimpeiro o trouxe à realidade. Começou a perceber que não fora sonho o que ouvira. Então era verdade: estava com a terrível maleita. A opressão mental se transformou em dois blocos de pedras gigantescos a esmagar a sua esperança. Sentiu-se nu e descalço no meio de um frio pântano negro. Começara o seu purgatório. O céu desceu até a sua cabeça com pesadas nuvens de angústia. Não daria tempo de chegar ao hospital Samaritano, distante, pelo menos, vinte léguas do garimpo. Estava fraco; o ar lhe passava arranhando os pulmões.
Pôs as mãos sobre a cintura. Estendeu os polegares para frente, em atitude de submissão. Os outros dedos apertaram o baço num gesto desesperado de retirar à unha a sua dor. Sumiu na noite sem lua. Nenhum garimpeiro percebera a sua ausência. Amanheceu.
Ninguém sabia o que acontecera ao companheiro de rosto cavoucado. Reunidos, chamaram por ele. Viram um bando de urubus voando alto, bem alto. Arautos da morte.
O chão tremeu sob os pés dos homens que também começaram a ficar com seus rostos cavoucados. Talvez fosse um bando de tatus cegos a cavoucar as rochas do tempo.
 
(Publicado no jornal Diário da Manhã - DM-Revista - Goiânia - Goiás em 29 de setembro de 2012)

Doracino Naves, jornalista; diretor e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV(www.programaraizes.net). Escreve aos sábados no DMRevista.