segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Portas do Além

Senador Canedo era só uma estação de trem; fim da linha de quem vinha de Araguari; começo de viagem para quem saía de Goiânia. Só havia a estação e singelas casas compunham o cenário de uma pequena comunidade do interior. Num final da tarde o sol, já cansado do dia, não alumiava de cima; era de lado que a luz chegava mostrando sombras. Longe, um tropel  anunciava a chegada de um burro carregado de lenha;  arauto de tragédia.

De cada lado um feixe amarrado equilibrava o outro; tinha um facão enfiado entre a lenha. Um homem estranho com passos lentos puxava a rédea. Suas roupas grossas feitas de algodão cru. Um chapéu de palha marrom cobria a cabeça grande. Na cara um bigode espesso. Do lado direito da boca um mascado cigarro de palha. Seu olhar, rasteiro, tinha sobrancelhas grossas e a testa franzida era o de um homem com cara de mau. O burro alazão parecia mais com gente do que aquele homem. Ia para o lado do único armazém do lugar.
  
As portas da venda do Zé eram feitas de ipê.  Toscamente trabalhadas por um formão impreciso; marcas bêbadas em desalinho. Duas bandas da porta davam para a rua principal, outra mostrava a saída para uma rua lateral onde morava um cachorro bernento; os vermes já tinham comido uma parte do seu lombo podre. De dentro da venda vinha um cheiro forte de fumo, cachaça e querosene. Num canto escuro, rolos de corda de bacalhau usados na lida do campo.

O homem estranho entrou, pediu uma pinga e um pedaço de fumo de Bela Vista. Mordeu um pedaço do fumo e o mascou fazendo careta como o diabo na presença de Deus. Jogou a pinga na goela, seu corpo arrepiou; náusea de ruindade. Cuspiu no meio da rua pedaços de fumo e cachaça. Com uma binga acendeu de novo o cigarro de palha que se apagara por falta de pitar. Deu duas baforadas e mirou a rua deserta. Uma lagartixa verde cruzou com a cabeça em sentinela.

Com o sol se aninhando por trás do morro Zé da Venda acendeu uma lamparina a querosene. Dentro do armazém escureceu mais rápido. Com um olho fazia contas; o outro observava o freguês incômodo. Viu quando sua botina rangedeira trouxe o fantasma para perto do balcão grosso de madeira.

- Quero uma lata de querosene, um rolo de fumo, duas braças de corda e uma garrafa de pinga em troca da lenha!

Seu Zé tremeu de medo. Era muito pela lenha. E nem era boa de fogo.

-Não preciso de lenha. Pode ir embora que não vou lhe cobrar o que já lhe servi.

O estranho, sorrateiro, foi até o burro pegar um facão. Quando enfiou a mão na lenha uma enorme cascavel saiu pendurada com as presas cravadas na mão direita do intruso. Um grito de horror:
-Cobra desgraçada!
Deu alguns passos e caiu de bruços. Suas narinas ofegantes do último suspiro sopraram a poeira da rua. Uma lagartixa correu pro mato. Seu Zé, sem pressa, enrolou um cigarro; com a lamparina perto dos olhos acendeu seu cigarro de palha. Outras quatro lamparinas foram acesas para velar o valentão que encontrou em Senador Canedo o fim da linha e o começo de outra viagem.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www. fontetv.net)

Com Sombras Não Se Brinca

Minha sombra está enterrada nos quintais de Porto dos Barreiros, perdida nos fundões das Minas Gerais. Ponho o ouvido no chão do jeito dos índios. Ouço os acordes de um violino tocando na igrejinha, no alto do morro; sinos chamam para a missa de domingo. Nas ruas de poeira um carro de bois ronca, numa tarde quente. O vento me traz o chuá das correntezas espumantes do Rio Paranaíba. Nas margens, do lado de Minas e Goiás, periquitos quebram o silêncio da mata fechada, abrigo de mosquitos fortes. Gilberto Mendonça Teles me fala com seu poema: “Algumas vezes eu me lembro duma tarde na roça: a poeira da boiada e o berrante cortando e dando nó...”. Dou uma tapa na memória. Volto à Goiânia nos tempos da pinguela do Bosque do Botafogo.

Por ela passavam sonhos. Aquele tronco de jatobá atravessado sobre o córrego  me levava ao Bairro Popular onde morava Anita, a moça de Hidrolândia. Bela morena de seios fartos com gosto de jabuticaba da beira do Ribeirão das Grimpas. Eu, pequeno roceiro chegado dos sertões de Minas estava deslumbrado com a cidade nova. O centro de Goiânia tinha cinemas, Fonte do Paladar, Lanche Acapulco, lambretas desfilando pela Rua 8. Meus olhos ficavam vidrados nessas novidades. O vaivém era na Avenida Anhanguera, no trecho entre a Rua 8 e o Cine-Teatro Goiânia. Por ali passavam os jovens de Goiânia. 

Para escrever essa crônica voltei á antiga pinguela. Hoje, lá existe uma passarela através da marginal Botafogo, na altura da Vila Nova. Um vereador diligente substituiu o tronco de madeira por uma viga de concreto. Coisas da modernidade.  Mas a passarela continua liame de sonhos que atravessam para o centro em busca de histórias. Vejo-me, do alto, como fantasma perambulando pelo cerrado seco destes dias sem chuva. Ufa! Que calor! Faço caretas de exaustão. As águas podres do córrego viajam rumo ao João Leite.

Ao lado, nas margens do Botafogo, passam carros apressados com outros sonhos. É tempo de eleição. Depois dela a nossa vida será melhor ou pior; depende de quem a gente escolher. Melhor será que a escolha seja pelo ideal que dá sentido à existência. Na política, como no amor, o mistério é a simplicidade. As convicções estremecem e deliram na singeleza dos gestos. A luz de um olhar atento enche o ser humano de glória. Nós, mortais, somos portais enterrados nos jardins do mundo em construção.

É preciso um pouco de tudo para fazer um mundo; cada um de nós guarda na alma desejos para viver melhor. Vejo, embaixo, o trânsito animado. Parado em cima da passarela não sei quem vem nem quem vai. Percebo que existem  sons que nascem da alma. Violinos, escondidos pelas lembranças, vibram como as cornetas de Josué tentado derrubar as vaidades humanas.
 
Desenterro as sombras dos quintais de Porto dos Barreiros. Ponho meus ouvidos na terra. Vejo luzes que cintilam ao som de cornetas. Abano a cabeça com esperança. Adeus sombras. Com elas não se brinca.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV ww.raizestv.net

Sofá Amarelo

Numa manhã de inverno o amigo Agostinho chega a minha casa, na 4ª Avenida, Vila Nova. 

- Dei o seu nome para ser padre.

- Padre? Eu? Ficou louco, Agostinho? Eu quero é ser oficial da Aeronáutica.

- Pois é, Doracino. Mas, o seu nome já foi para o seminário de padres, lá no interior de São Paulo.

Quem gostou de ouvir essa notícia foi a minha mãe; católica  fervorosa. Até acho que foi ela quem armou isso. Afinal, aos 12 anos, eu a acompanhava às novenas em louvor a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Igreja Matriz, em Campinas. Decerto ela pensava que eu gostaria de dirigir missa.

Pensei, humildemente: não sou tão bom assim para ser padre. Ainda ontem pequei. Na brincadeira de “passar anel” segurei as mãos de Diná  mais do que devia. Ela gostou e respondeu  com um sorriso brejeiro. Sorrindo piscou maliciosamente e deixou o anel comigo; meus pensamentos profanos foram longe. Dormi sonhando com as mãos macias de Diná se mexendo entre as minhas.

Imaginei-me impuro por pensar assim. Por isso não quis ser padre. Meus sonhos, literalmente, voavam pelo espaço: entrar na Aeronáutica, vestir a farda azul, pilotar um avião de caça. Quem sabe eu seria o herói de alguma mocinha sonhadora da Vila Nova. Diná, aquela de cabelos castanhos, olhos de amêndoas, que morava na Rua 210 era a desejada. Eu me via como Toni Curtis,  num filme americano onde era um piloto de guerra americano. Diná poderia ser a minha Janeth Leigh.

Queria encontrá-la no sábado de festa junina. O parquinho de diversões já estava instalado na Praça da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Vesti a minha melhor roupa de frio. No pátio da igreja tinha quermesse, barraquinha e correio elegante. Procurei Diná no parque. Não a vi. Numa barraca toda enfeitada de fitas e balões coloridos estava Diná com vestido simples de tafetá rosa. Na frente tinha florzinhas bordadas da cintura até o peito.

Fui com a intenção de enviar o correio elegante, um bilhetinho entregue a uma mensageira com palavras de amor. Diná tinha um irmão grande, maior e mais forte do que eu. E se ele abrisse o correio elegante?  Cocei a cabeça. E agora? Ah, já sei: “vou mandar um recado pela irmãzinha”. Novamente recuei com receio de que ela contasse á mãe. Deveria pensar noutra saída.

“Achei!”. O serviço de alto-falante tocava músicas com recados nos intervalos. Era a minha chance de me fazer ouvir. Mandei o meu nos decibéis possantes da Igreja; ecoou nos confins da Vila Nova.

“Alguém oferece a alguém como prova de amor e carinho. E esse alguém sabe quem”. Meu rosto corou ao ouvir a mensagem na voz estridente do locutor.

Corri de volta pra casa. Ainda hoje penso que nem Diná soube que fui o autor e ela o alvo da estranha e hermética declaração de amor. Escondido na sala ouvia vozes que falavam  do vexame aos meus ouvidos. Dava até para ouvir a respiração dos móveis na noite estrelada de junho. O sofá amarelo, amigo de sonhos, me abriu os braços. Apaguei a única luz da sala de um barracão de três cômodos em que morávamos. Havia paz, sossego e uma tênue esperança.


Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net)
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Chuva de Outubro

Desço a estrada de Anápolis rumo a Goiânia, depois da visita a um amigo enfermo. Olhos atentos à estrada; os pensamentos piscam imitando os pirilampos que voam sobre o chão queimado do Parque Altamiro de Moura Pacheco. O fogo destruiu a maior parte da reserva.

Não quero morrer agora. Ainda não cumpri meu papel nesse mundo. Por essa causa minha hora não chega. Será que ainda tenho uma missão a cumprir aqui?  Acho que não. Nem me julgo importante para merecer uma tarefa especial de Deus. Os anjos do Senhor, tal qual pirilampos, voejam sobre a minha existência.

Faço o inventário da minha vida. Jogo tudo na balança. Meus erros pesam mais. Sabendo que um dia tudo tem um fim, começo a compor os versos de espera da hora final. Fico igual ao namorado que espera a mulher: olha a hora, respira, fuma um cigarro, vê em volta, ouve sons. Escuta os passos cadenciados que tocam a calçada. O coração, movido pela ansiedade, bate descompassado. “É ela!”  Ainda não.

Está atrasada. Mas ele espera. Resolve esperar mais dez minutos. Se não chegar vai embora. Espera mais meia hora. A ansiedade o faz esperar mais. Por que demora tanto?  Finalmente o milagre: ela chega como presente do céu. O coração do namorado se acalma. Eu, com meu botões, penso no futuro.

Enquanto racionalizo a perspectiva do fim, sonho para celebrar a vida. Ao terminar a descida das curvas em declive chego à curva “Lá, Goiânia!”. Enxergo as luzes da cidade. Meus olhos piscam na velocidade em que mudo os pensamentos.

Deixo a BR-153; entro no Jardim Guanabara. Está bonita essa avenida que não sei o nome: larga, duas pistas cruzam o bairro de norte a  sul. Dali, rumo ao centro, tem um quartel. Lembro um poema de Gilberto Mendonça Teles.

-Teje preso!Ocê num sabe
que é proibido namorar
detrás do quartel?

-Teje solto! Nóis num sabia
que o sinhô era amigo
da mulher do coronel.

Depois do quartel uma chuva fina põe luz no asfalto. Os pneus chiam na pista molhada. Olho para baixo; tenho tontura quando baixo os olhos. Decidido, levanto a cabeça. A chuva, ao cair através das luminárias da Avenida Goiás, se transforma em gotículas de luz correndo pelo asfalto.

As ruas se transformam em rios. O carro, igual a um barco de sonhos, rompe as águas da enxurrada de outubro. Goiânia se fez uma ilha; eu também.


Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (http://www.fontetv.net/)


Foto de: Renato reis
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 | By: Doracino Naves

Labaredas Gordas

Não sou chique. Fui brega.  Acho que ainda sou assim. Daqueles que escrevia nas costas da foto dada à namorada: "Olha esta foto enquanto o original pensa em ti". Vergonha de ter feito isso? Claro que não. Pior era um amigo meu que carregava um espelhinho de bolso com foto de mulher pelada. Não era eu, tá? Não acredita? Fazer o que, né? Depois de abrir esta crônica falando que sou brega estou sem autoridade para insistir no contrário. Se bem que já confessei a minha ingenuidade de roceiro em outras crônicas. Na verdade ainda sou um caipira de Porto dos Barreiros.

A minha vinda para Goiânia, em 1958, burilou um pouco o meu jeito. Os meus contatos com outras cidades ajudaram nisso. Pois é. Hoje conheço Hidrolândia, Aragoiânia... Desculpe a brincadeira. Fiz isso para amenizar o que vou contar a seguir. Falando melhor, viajei mais longe um pouquinho.

Mas, a grande viagem que ainda faço é através do imaginário. Os meus sonhos e a minha utopia me cutucam a toda hora. Por causa desse modo caipira gosto de lidar com pessoas mais simples. Quando fui vereador em Goiânia, em 91 e 92, representei a última favela de Goiânia: o Morro do Aranha. Gil do Pagode, amigão dos “aranhas” morava no Bairro Popular. Por meio dele conquistei a amizade dos moradores da favela.

Procurei, durante o meu mandato, retribuir o carinho dos moradores. Ninguém ousava subir o morro sozinho; eu ia sem receios. Seus becos estreitos eram aterradores. Muitas vezes tive que subir, à noite, para atender ao chamado de algum morador. Numa delas, feita a uma mulher doente, me foi pedido um colchão de espuma. Ela, com tuberculose, dormia no chão úmido sobre um monte de jornais velhos. A favela ficava pendurada no antigo leito da estrada de ferro Goiânia-Campinas, no aterro do Setor Norte Ferroviário, onde um chuvisco era temporal.

Na manhã seguinte o Gil e mais dois moradores, todos negros, me procuraram em casa. Entramos num Fiat Uno, branco, rumo à loja de colchões, no Setor Pedro Ludovico. Na ida passamos por vários carros da polícia; alguns estrategicamente atravessados nos cruzamentos da Rua 90. Comprei o colchão, acomodei-o no porta-malas. Voltamos pelo mesmo caminho. No cruzamento da Avenida 136 percebemos que os carros da polícia militar fechavam o trânsito. Pelo retrovisor vi que um carro de choque vinha em alta velocidade. Os policiais apontavam armas pesadas para nós. Uma corneta ordenou:
                     
- Pare! Encosta o carro!

Paramos assustados. Estacionei em frente a uma loja de móveis. O Gil do Pagode tremia igual vara verde.

-O que eu fiz?  Juro pra vocês que não fiz nada de mal.
                 
-Desçam do carro com as mãos para cima!

Saí com a carteira de vereador na mão direita. Na parte interna tinha um enorme brasão da república.  O comandante da operação "passou um rádio" à central. Após alguns minutos de conversa entre os piliciais, fomos liberados. O Gil ainda tremia de medo.

-Quase fui fuzilado sem ver a Unidos do Aranha campeã do carnaval de rua de Goiânia.

Na Câmara, quando me preparava para subir à tribuna para reclamar do excesso da abordagem, recebi a ligação do Comandante da PM de Goiás. Educadamente me disse  que um carro com as mesmas características estava envolvido em um sequestro. Aceitei a justificativa e as desculpas feitas em nome da instituição. Volto ao conceito de chique e brega.

Às favas a frívola elegância. Sendo assim, prefiro a simplicidade das coisas do interior; a figura alegórica de um ex-voto retirada das telas do Omar Souto diz da graça da vida. Bela é a imagem de um roceiro diante de um fogão-a-lenha. Vê o fogo; viaja nas labaredas gordas e vermelhas das suas recordações. Meus cabelos cinza andam dentro da minha saudade.

Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www.raizestv.net) 

Guilherme, Argos do Olímpico

Ando pela calçada Rua 70 rumo a Avenida Paranaíba quando vejo o Guilherme, ídolo do Vila Nova no fim dos anos 60, descendo pelo outro lado da rua. O iluminado centroavante caminha sozinho como andorinha sem beiral. Congelo a imagem e volto o relógio no tempo. O cenário é o antigo Estádio Olímpico.

Numa tarde qualquer de um domingo de futebol certo. O alto-falante do estádio Olímpico anuncia que o Vila contratou Guilherme três do URT, de Patos de Minas:  Guilherme, Zé Geraldo e Bajoso. Eles aparecem na boca do túnel dos vestiários, acenam timidamente  para a torcida. Guilherme se tornou ídolo e imprimiu com os pés a melhor poesia do futebol goiano. Seu estilo foi sublimado com a beleza do drible inesperadamente belo e mágico. 

Guilherme foi mais talentoso atacante do futebol goiano em todos os tempos. Anísio, motorista da Secretaria da Cultura de Goiânia, torcedor fanático do Goiás diz que o maior foi o Gibrair. Aceito sem polemizar porque o Gibrair também era do Vila.

Qual o beque que poderia parar o toque rápido e a ginga desconcertante do Guilherme? Ninguém foi capaz de imitá-lo na arte de tocar a bola e fazê-la brilhar como pirilampos na noite; o seu corpo desconjuntado se movimentava com incrível rapidez. Movia-se no velho Estádio Olímpico como bailarino do Bolshoi. Arte pura. Hoje, a televisão mostra jogadores ofegantes como velocista no final do percurso. Falta arte; sobra força física à maioria dos jogadores do atual futebol. Com a língua pra fora mais parecem cães depois da caça aos catitús.

Guilherme está ali, na outra calçada. Sereno, de cabelos grisalhos; um anjo com sua lira tocando solene sobre as ruínas fantasmagóricas do Estádio Olímpico. Lá, os acordes da sua arte de jogar ainda vibram como a lira de Orfeu. Sua alma deartista da bola esconjura o futebol televisivo e previsível igual ao jogo de vídeo-game. Guilherme, o argonauta do Olímpico bebeu na fonte de Virgílio para entoar o canto poético que salvou o Vila de muitos naufrágios. 

Ah, Vila Nova! Porque demora a ressurgir do limbo? Quando será que a Fênix vem mergulhar suas asas no futebol de ouro do Guilherme. Volta, Fênix! Faz seu ninho no Onésio. Faz o Vila Nova ressurgir das cinzas.

Volto à imagem ao tempo real. Guilherme dá um sorriso enigmático e passa. Olho em volta. A calçada do Bairro Popular parece viva. Ela se move como fantasmas sob os meus pés; a insuportável solidão me acompanha. Caminho sozinho pela Rua 70. Só a calçada.

         Doracino Naves é jornalista, diretor-apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, na Fonte TV (www. raizestv.net)